Brasil pode sair do buraco pagando dívida pública
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de junho de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
O Brasil tem jeito. Se você acha que é conversa pra boi dormir, experimente ao menos conhecer o programa idealizado pelo economista Almir Rockembach. Há dez anos, ele vem se dedicando a convencer compatriotas de que a nossa dívida pública, hoje passando de R$ 1 trilhão, pode ser paga. E que conforme ela vai sendo liquidada, os juros e a carga tributária caem, o País recupera sua soberania e os seus 56 milhões de miseráveis ganham plenas chances de sair do buraco.
O projeto ''Brasil Sem Dívidas: um modelo para reflexão'' pode não ser infalível, mas vem fortemente embasado em números da economia nacional e sugere os instrumentos necessários para atingir seu objetivo. Bem diferente do discurso oco e cheio de promessas miraculosas que se repete a cada campanha eleitoral. Rockembach, que é paranaense de Pato Branco, mas se considera um ''pé-vermelho'', diz que fez questão que o primeiro grande evento de apresentação do projeto fosse feito em Londrina, através da Folha. Para tanto, o jornal promoveu uma palestra seguida de debate, no Hotel Sumatra, que reuniu o economista, colegas da área e outros profissionais, cujo resultado você lê nesta reportagem.
''Em junho de 1995, tínhamos R$ 1,88 de patrimônio para cada R$ 1 de dívida do setor público. Era uma situação invejável no mundo inteiro. Por isso vieram para cá empresários estrangeiros, muitos dos quais receberam de graça esse patrimônio, e outros ainda se valeram de recursos do (BNDES) Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para financiar incompetências externas'', lembra Rockembach, para explicar como o Brasil perdeu ''a oportunidade de se construir com um caixa soberano, ficando com um caixa subalterno'' após privatizações mal feitas.
Por subalterno, entenda-se um país que foi perdendo liquidez até chegar em dezembro de 2005 com apenas R$ 0,08 de patrimônio para cada R$ 1 de dívida, ou R$ 1 trilhão no total. O valor corresponde a 51,6% do nosso Produto Interno Bruto (PIB). O monstro dos juros engordou na mesma proporção, atingindo R$ 157 bilhões no ano passado. Citando os acumulados dos últimos sete anos, o economista aponta que a dívida atual é composta por quase R$ 920 bilhões só em juros. Os números são do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Banco Central (BC).
Como o dinheiro que sai dos cofres públicos - ou seja, do bolso de cada cidadão - é cada vez mais insuficiente para cobrir os juros, a dívida tende ao infinito. ''Isso é uma burrice. Estamos com uma política monetária que concentra fortemente a riqueza nas mãos de financiadores da dívida pública e utiliza o aparelho do Estado para fazer essa transferência. Do outro lado, multiplica a miséria. Não é triste ver que no país mais rico do mundo já somos 56 milhões de miseráveis?'', questiona, citando estatística divulgada em 2004 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), sobre o total de brasileiros com renda mensal inferior a R$ 79.
A legião de miseráveis é apenas o extremo da situação. Com juros e carga tributária nas alturas, a classe média também está empobrecendo e cada vez mais perdendo poder aquisitivo. No setor agrícola, a radicalização dos protestos diz tudo. Enquanto isso...
''Veja os lucros dos bancos: não há registro na história econômica de balanços nesses níveis. Os produtores, sejam agrícolas, de carros, de máquinas, de bens de capital, não têm 10% desse lucro. É óbvio que essa concentração de renda vai acabar levando a uma ruptura do sistema econômico, talvez em um ano e meio, no máximo dois'', arrisca o economista Ismael Mologni, participante do debate.
Continua na página 3


