Peters Parks/France PressePanorama mundialMichel Camdessus, ontem, na reunião anual do Fundo Monetário, no Centro de Exposições e Convenções de Hong KongO Brasil tem condições de liderar as economias dos países em desenvolvimento, mas só se conseguir enfrentar o crescimento do déficit em suas contas externas, afirmou o diretor do departamento de pesquisa e desenvolvimento do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michael Mussa, ao apresentar oficialmente o relatório ‘‘Perspectivas da Economia Mundial’’. Tanto no relatório divulgado na Reunião Anual do FMI e do Banco Mundial quanto nas conversas e entrevistas, os técnicos do Fundo repetem sempre duas constatações a respeito da economia brasileira: houve um ‘‘notável’’ avanço no combate à inflação, mas há um preocupante aumento no déficit externo.
‘‘O governo está na direção certa, tomando as medidas para apertar a política fiscal, e o que estamos dizendo aqui é que gostaríamos de ver uma maior mudança do conjunto de medidas de política econômica nessa direção (do controle das contas públicas)’’, explicou à Agência Estado o vice-diretor de política econômica do FMI, Flemming Larsen. ‘‘O aperto na política fiscal poderia ajudar a aliviar a pressão nas taxas de juros, no fluxo de investimentos estrangeiros e no balanço de conta corrente (a soma das saídas e entradas de dólares no comércio externo e serviços, como turismo, fretes e pagamentos de juros)’’, disse.
Para Larsen, as receitas com a privatização, o aumento de reservas internacionais e a contínua chegada de investimentos diretos estrangeiros tornam ‘‘menos sério’’ o problema provocado pelo déficit externo. ‘‘Mas o déficit vem crescendo, e vamos ficar preocupados se continuar assim’’, comentou.
O FMI não chega a entrar em detalhes sobre que tipo de medidas poderia ser adotado, mas concorda com o diagnóstico do governo, de que é necessário promover mais rapidamente reformas como a da Previdência e do setor público, para conter fontes de despesa e reduzir a pressão do setor público na economia.
O relatório ‘‘Perspectivas da Economia Mundial’’ prevê para o Brasil um déficit em conta corrente de 4,5% este ano e 5% em 1998, resultado só inferior ao do Paquistão, Polônia e Nova Zelândia. Destes, só o Brasil e a Nova Zelândia mantêm tendência de crescimento no déficit.
Embora reconheçam os esforços do governo brasileiro, os técnicos do Fundo - que no início do Plano Real duvidavam do sucesso da estabilização econômica no País - jamais citam o Brasil entre os exemplos a serem seguidos entre os países em desenvolvimento. A alta taxa de desemprego na Argentina e a crescente dependência daquele país em relação às importações feitas pelo Brasil não impede que o modelo argentino esteja, com o do Chile, entre os únicos sempre lembrados pelos economistas do fundo. ‘‘A Argentina e o Chile estão na frente’’, comentou Mussa, ao garantir que é otimista em relação às perspectivas na América Latina.
VizinhosA economia da Argentina ‘‘se encontra em pé de igualdade absoluta com a do Brasil e não é dependente de seu mercado’’, afirmou ontem o presidente Carlos Menem. ‘‘Argentina está exportando sua produção praticamente para todo o mundo’’, disse Menem, á Rádio Continental, consultado sobre o elevado índice de exportações que se dirige ao maior parceiro do Mercosul.
Analistas econômicos e financeiros têm assinalado o temor de uma eventual correção de grande porte na paridade cambial brasileira, que deixaria sem colocação 33% das vendas argentinas.

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