AGRICULTURA EM CRISE Brasil planta menos e importa comida Área de grãos, que poderia ser três vezes maior, ficou 13,5% menor em 10 anos. País gastará US$ 1,5 bi com alimentos este ano Arquivo FolhaPRODUTIVIDADE BAIXABrasil poderia colher 290 milhões de toneladas, mas esbarra na escassez de tecnologia no campo Roberto Oliveira Agência Folha De São Paulo Em pouco mais de dez anos, a agricultura brasileira reduziu em 13,5% a área plantada de grãos. O País compra no exterior arroz e milho; é o maior importador de trigo do mundo. O atual espaço destinado à plantação de grãos, que poderia ser três vezes maior, passou de 42,4 milhões de hectares na safra 1988/89 para 36,5 milhões de hectares em 1998/99. Na safra atual, os agricultores brasileiros plantaram cerca de 36 milhões de hectares. O Brasil continua dependente de compras externas para garantir o fornecimento de grãos. Somente este ano, o país terá que importar ao menos 10 milhões de toneladas de grãos, diz Vicente Nogueira Netto, chefe do Departamento de Economia da CNA (Confederação Nacional da Agricultura). Empresas importadoras estimam que o País vai gastar cerca de US$ 1,5 bilhão com essas importações. O levantamento da CNA revela que a agricultura dispõe de 90 milhões de hectares para ser explorados, principalmente em regiões de cerrado no Centro-Oeste, Norte e Nordeste. A expectativa do governo é que a safra brasileira 2000 fique em torno de 83 milhões de toneladas de grãos. Mas, segundo levantamento da CNA, o País poderia colher pelo menos 290 milhões de toneladas este ano caso explorasse toda a área ainda disponível. A estimativa de 290 milhões de toneladas baseia-se na produtividade média das últimas colheitas. Leva em conta, portanto, a baixa produtividade da maior parte dos grãos, fruto da escassez de tecnologia no campo, que ainda trabalha com maquinário agrícola considerado obsoleto. Ainda assim, esse volume seria suficiente para garantir o abastecimento interno e ainda gerar excedente para a exportação. Boa parte dos alimentos importados pelo Brasil vem da vizinha Argentina, que nos últimos anos apresenta índices invejáveis de crescimento agrícola. Lá, a produção de milho aumentou 187%; a de soja subiu 82% e a de trigo cresceu 45% nos últimos dez anos. No Brasil, o crescimento foi de apenas 46% para o milho e de 31% para a soja, enquanto a produção de trigo teve queda de 27%. Trigo, milho e arroz, alguns alimentos básicos do cardápio brasileiro, são hoje os três itens mais importantes da importação agrícola. ‘‘Há um imenso estrago na agricultura brasileira, que está completamente descapitalizada’’, afirma o professor da USP, Fernando Homem de Melo. Para aumentar a produção, diz ele, a agricultura precisa resolver o problema da falta de investimentos. ‘‘Faltam políticas de apoio, como em outros países. Política, por exemplo, de preço mínimo, de estocagem, vitais para incrementar a produção.’’ Segundo dados da OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), apenas 20% dos agricultores brasileiros têm acesso ao crédito oficial do governo, que oferece taxas de juros bem abaixo das praticadas pelo mercado. ‘‘O produtor corre para procurar crédito em empresas de insumos ou mesmo no mercado, entrando em um processo de dívida cada vez maior que continuará a excluí-lo do empréstimo oficial’’, afirma Valdir Colatto, superintendente da OCB. As perdas na colheita de soja no Brasil atingem cerca de 1.500 toneladas por safra, o que representa cerca de R$ 500 milhões em prejuízos. A área cultivada com soja no Brasil é de aproximadamente 13 milhões hectares. A média brasileira de perda é de 2 sacos de 60 kg por hectare, segundo estudos da Embrapa-Soja, de Londrina, no Paraná, o maior Estado produtor do Brasil. O Departamento da Agricultura dos EUA – maior produtor mundial – estipula como aceitável a perda de no máximo 1 saco de 60 kg de soja por hectare.