Agência Estado
De Buenos Aires
O Brasil acha inaceitável dar compensações à Argentina por causa da desvalorização do real. O recado foi dado, em Buenos Aires, pelo embaixador do Brasil no Mercosul, José Botafogo Gonçalves. Ele chegou anteontem à Argentina para reuniões, até sexta-feira, na Chancelaria.
A posição foi uma resposta de Brasília a alguns membros do governo do presidente Fernando de la Rúa. O aviso se estendeu ainda à oposição, entrincheirada no Partido Justicialista, e hoje tendo à frente Carlos Ruckauf, o governador da província de Buenos Aires. Ruckauf não poupa críticas aos governadores dos Estados brasileiros que, com suas políticas de subsídios, têm conseguido atrair empresas argentinas para o Brasil. A nova rodada de negociações entre os dois países tenta dirimir as tensões existentes em vários setores e avançar na questão do regime automotivo.
Jornais argentinos publicaram ontem as opiniões de Botafogo sobre o assunto. Para o embaixador brasileiro, o acordo do Mercosul não prevê que hajam compensações para o caso do impacto comercial fruto da desvalorização da moeda. Ao Clarín, Botafogo Gonçalves disse que o real teve de ser desvalorizado em janeiro de 99. ‘‘Em todo esse período as autoridades monetárias argentinas tiveram uma clara manifestação de ceticismo com relação à política cambial brasileira’’, disse o embaixador, numa referência ao governo do ex-presidente Carlos Menem.
A concessão de compensações tinha sido sugerida na segunda-feira pelo chefe de Gabinete do governo, Rodolfo Terragno. Sua proposta é respaldada pelo governador peronista Ruckauf mas não pela Casa Rosada, já que De la Rúa descarta essa possibilidade e propõe avançar na solução dos conflitos.
Além da sensível questão automotiva, nas discussões desses três dias tem espaço os setores de alimentos, sapatos, têxtil, papel e aço, entre outros. O vice-presidente Carlos ‘‘Chacho’’ Alvarez, disse, antes de entrar na reunião, que Ruckauf dirige uma província que destina ao Brasil 40% de suas exportações. ‘‘Eu entendo a preocupação dele’’, disse. Acha, contudo, que os problemas não colocam o Mercosul em risco.
Já o secretário de Relações Internacionais da chancelaria argentina, Horacio Chighizola, bateu duro. Disse que não vai se somar à ‘‘pirotecnia verbal’’ do embaixador. Ele disse que Botafogo Gonçalves é ‘‘um homem da política’’. E mais: ‘‘tenho de respeitar seu espaço’’.