Milton DóriaNa estufaO pesquisador Ricardo Abdelnoor mostra as primeiras plantas de soja transgênica cultivadas no País Plantas com gene de bactérias ou mesmo de insetos. Há algum tempo esta mistura poderia ser classificada como ficção científica, mas hoje faz parte do mundo real, movimentando grandes somas de dinheiro e prometendo trazer muitas soluções para a produção de alimentos. O mercado de produtos originários da biotecnologia movimenta anualmente US$ 10 bilhões e consome, no mesmo período, investimentos entre US$ 10 e US$ 12 bilhões em novas pesquisas.
E o Brasil começa a dar seus primeiros passos nesta área. No Paraná, o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e o Centro Nacional de Pesquisa de Soja (CNPSo) da Embrapa estão iniciando desenvolvimento de experimentos com transformação genética de plantas. O assunto gera polêmica entre organizações ambientalistas e de proteção ao consumidor.
A Embrapa-Soja já está cultivando em casas de vegetação a soja transgênica desenvolvida nos Estados Unidos pela Monsanto. Segundo o pesquisador da Embrapa-Soja, Ricardo Vilela Abdelnoor, especialista em Biologia Molecular de plantas, o centro da Embrapa em Londrina firmou uma parceria com a Monsanto para o desenvolvimento de variedades com genes da soja transgênica Roundup Ready (RR).
A soja RR traz dentro de seus cromossomos um gene da bactéria Agrobacterium tumefasciens que tem a capacidade de dissolver o princípio ativo (glifosato) do herbicida fabricado pela própria Monsanto. Com isso, diz o pesquisador da Embrapa-Soja, o número de aplicações de herbicidas poderá ser reduzido, e consequentemente os custos de produção de soja vão diminuir.
‘‘Hoje o produtor tem de fazer controle químico de ervas daninhas no pré-emergente e pós-emergente e utilizar herbicidas específicos para plantas de folhas largas e de folhas estreitas e ainda utilizar o produto na dessecagem’’, diz. Com a soja transgênica, o produtor poderá fazer apenas uma aplicação, com um produto de amplo espectro, ou seja, que atinja todas as ervas daninhas, menos a soja.
Meio Ambiente Outra vantagem proporcionada pela soja transgênica diz respeito à conservação do meio ambiente. O pesquisador da Embrapa-Soja afirma que o herbicida de amplo espectro, ao qual a soja RR tem resistência, é biodegradável, se decompondo em contato com o solo. ‘‘O princípio ativo do herbicida só atua em contato com as plantas danhinhas’’, afirma. Ele observa que os produtos utilizados atualmente na cultura da soja são mais prejudiciais a natureza, tanto pelo fato de permanecer mais tempo no meio ambiente, como pelo maior número de aplicações que o produto exige.
Abdelnoor não acredita que esta biotecnologia venha a provocar uma ‘‘dependência’’ do produtor pelo herbicida fabricado pela Monsanto. ‘‘O produtor não vai ficar mais dependente de produtos químicos do que já é. Porque o plantio tecnificado exige a aplicação destes produtos’’, comena. Além disso, o pesquisador observa que outras empresas como a Cyanamid e AgrEvo já estão desenvolvendo plantas resistentes aos seus produtos, e a Embrapa poderá vir a fazer convênios com outras empresas. ‘‘O produtor é quem vai decidir o que é melhor para ele’’, comenta.
Certificada O pesquisador diz que para entrar no País, a soja transgênica teve de passar pelo crivo da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que, por enquanto, aprovou apenas o cultivo da planta modificada geneticamente em casas de vegetação. Agora, segundo Abdelnoor, a Embrapa-Soja, aguarda a liberação para o cultivo em nível de campo. Ele acredita que até julho a CTNBio aprove o pedido e a partir de novembro a Embrapa-Soja plante as sementes nos campos experimentais.
Abdelnoor explica que o trabalho desenvolvido pela equipe de melhoristas da Embrapa-soja, chefiada pelo pesquisador Romeu Kiihl, busca variedades específicas para as condições das lavouras brasileiras com o gene da soja RR. ‘‘Não adianta ter apenas a restistência ao herbicida, a variedade precisa apresentar competitividade em termos de resistência a doenças e produtividade. Sem isso, o produtor não terá interesse’’, comenta.
Segundo o pesquisador, o produtor brasileiro deve ter acesso à soja transgênica dentro de três ou quatro anos. ‘‘Talvez a Embrapa desenvolva a variedade adequada antes deste prazo, mas não teremos volume para comercializar’’, comenta. Nos Estados Unidos, a soja RR já ocupa uma área de 5 milhões de hectares e a Argentina vai plantar pela segunda vez a semente modificada geneticamente: 1 milhão de ha na próxima safra.

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