A primeira grande negociação comercial do século 21 deverá ser dedicada em grande parte à agricultura, uma das mais antigas atividades humanas. Bilhões de dólares estarão em jogo quando se discutir, entre outras, a seguinte questão: a produção de banana deve ser tratada, para fins comerciais, como a produção de automóveis ou de geladeiras? Ou deve-se ver a agricultura como algo mais que produção de bens? Pode parecer estranho, mas esse deve ser um dos assuntos mais difíceis das próximas discussões globais de comércio.
Três posições estarão em confronto na 4 Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), iniciada ontem e com encerramento previsto para terça-feira em Doha, no Catar. O Brasil e outros 15 países do Grupo de Cairns pedem a completa eliminação dos subsídios à exportação, a extinção gradual de outras políticas que causam distorções e a total integração da agricultura nas normas internacionais de comércio.
Os Estados Unidos defendem posições parecidas, mas condicionam a redução de subsídios ao que a Europa fizer. A União Européia rejeita um compromisso antecipado sobre os subsídios e defende um tratamento diferenciado para a agricultura. Insiste em que as negociações incluam ''preocupações não comerciais'', denunciadas por outros como cortina de fumaça para mais protecionismo. As três posições foram reafirmadas ontem, na abertura do evento.
Os ministros do Grupo de Cairns defenderam uma rápida conclusão das negociações. Propuseram, também, redução ''substancial'' dos subsídios e da proteção comercial já no primeiro ano de cumprimento do novo acordo. Aparentemente, esqueceram um detalhe: se forem lançadas novas negociações globais de comércio, deverá ser adotado o princípio segundo o qual nada estará acordado, em nenhuma área, até a conclusão das discussões sobre todos os temas.
Previa-se um prazo de três anos para a conclusão da Rodada do Milênio, que se pretendia lançar em Seattle. Se o mesmo prazo for adotado, as negociações deverão terminar somente em 2004. Isso poderá criar um problema para o Brasil e para outros países do grupo.

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