O governo brasileiro voltou a tomar dinheiro no mercado europeu ontem, com o lançamento de bônus da República no valor de US$ 543 milhões, a primeira operação desse tipo depois da crise que nos mercados financeiros do Sudeste Asíatico no final do ano passado. Para ser bem sucedido, o Tesouro Nacional pagou taxas mais altas do que aquelas obtidas antes da eclosão da crise.
‘‘O preço foi baixo, considerando a situação do mercado’’, afirmou o chefe do Departamento de Capitais Estrangeiros (Firce) do Banco Central, Fernando Gomes. Para o lançamento de ontem, o prazo de resgate será de cinco anos. Já o ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse que o lançamento de ontem foi ‘‘um teste, mas também representa parte de uma estratégia de alongamento do perfil da maturidade da dívida externa’’.
Malan lembrou que esses lançamentos vêm ocorrendo desde 1995, embora tenham sido interrompidos em consequência da crise do Sudeste Asiático. ‘‘É normal que operações como essa ocorram quando nos parecer apropriado fazê-las’’.
Pelos novos papéis, segundo os técnicos do Firce, o Brasil pagará juros anuais de 4,17% acima da rentabilidade dos títulos do Tesouro norteamericano de mesmo prazo. No momento, isso equivale a uma taxa de 9,6% ao ano, segundo informações do Firce. Em maio do ano passado, quando lançou os bônus paralelos (papéis em moedas da Áustria, França e Dinamarca que serão transformados em Euro, a moeda única da Europa depois da unificação), o Brasil chegou a obter taxas 1,9% acima dos papéis norteamericanos.
Pulverização Numa operação comandada a partir de Londres, os novos bônus brasileiros foram vendidos a investidores de todo o mundo. Foram adquiridos principalmente por bancos, informou Luiz Augusto Peccioli, vice-presidente do Banco Paribas - que liderou junto com o SBC a colocação dos papéis brasileiros.
Originalmente, os papéis estão em ECUs (European Currency Unit), a moeda escritural que está sendo negociada na Europa até a unificação, quando os novos bônus também serão transformados em euro. Nessa moeda, o total emitido hoje equivale a 500 milhões e ficaram 3,90% acima da taxa básica paga pelo governo francês.
Segundo o chefe do Firce, o Brasil preferiu não lançar papéis em dólar por causa da atual volatilidade desse mercado. ‘‘Foi o mercado mais afetado pela crise, todo mundo correu para o dólar’’, afirmou.
Inicialmente, segundo Gomes, o governo brasileiro cogitou lançar em torno de US$ 250 milhões, ‘‘mas a demanda levou aos US$ 500 milhões’’, que serão pagos em baloon, ou seja, o principal será quitado no vencimento.
No entendimento do chefe do Firce, ‘‘a demanda demonstra a confiança do investidor internacional’’. Exatamente pelo retorno dessa confiança, Gomes assegurou que não será renovada a excepcionalidade aberta para rolagem ou captação de dívidas com exterior com vencimento até março.
Até a crise asiática, empresas e instituições brasileiras só podiam captar novos empréstimos e financiamentos com prazo mínimo de três anos. Nas operações de rolagem, o prazo mínimo era de um ano. Com as taxas elevadas por causa da crise, o BC reduziu esses prazos para um ano, na captação, e seis meses na renovação. ‘‘Voltaremos aos prazos originais’’, afirmou Gomes. Ele acredita que as taxas obtidas pelo Brasil hoje servem de referência ao setor privado nacional, que pode tomar recursos pagando encargos semelhantes aos que pagará o governo.

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