O Banco Central definiu diversos cenários especificando as medidas necessárias para enfrentar um eventual agravamento da crise argentina, considerando, inclusive, a hipótese de ‘‘default’’ (calote) do país vizinho. A montagem dos cenários foi discutida com o presidente Fernando Henrique Cardoso pelos ministros da Fazenda, Pedro Malan, da Casa Civil, Pedro Parente, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e apresentada ao Fundo Monetário Internacional.
Fraga desfruta de total confiança para conduzir esse processo e adotar as medidas, que têm como objetivo sinalizar aos investidores internacionais que o Brasil não irá naufragar junto com a Argentina. ‘‘Estamos tentando descontaminar a percepção de que o Brasil naufraga junto com a Argentina’’, admitiu uma fonte. O naufrágio conjunto é considerado o pior cenário pelas autoridades brasileiras e para combatê-lo, se necessário, o governo atuará em três frentes: não hesitará em recorrer a um aumento das taxas de juros, promover um novo ajuste fiscal e negociar a prorrogação do acordo com o FMI, que se encerra em 1º de dezembro deste ano.
A estratégia de atuação contra os impactos da crise argentina sobre o mercado brasileiro tem como alvo ‘‘salvar o ano de 2002’’. O governo, segundo fontes consultadas pela Agência Estado, quer neutralizar riscos ao financiamento das contas externas no próximo ano, numa tentativa de evitar a fuga de capitais no momento em que o País estará convivendo com a campanha sucessória à Presidência da República. Assim, muitas das ações no sentido de ampliar a captação de recursos externos não têm com o objetivo o fechamento das contas externas apenas deste ano, mas criar um ‘‘colchão de liquidez’’ que garanta uma transição confortável no decorrer de 2002. Por isso, a alternativa de prorrogação do acordo com o Fundo também é considerada na hipótese de se configurar uma crise de balanço de pagamento (dificuldade em fechar suas contas externas), em decorrência de um eventual estrangulamento no fluxo de capitais externos ao País.
O presidente do Banco Central vai pautar sua ação pela marca do gradualismo que tem caracterizado as intervenções do BC para conter a escalada do dólar. Fraga ‘‘não irá queimar munição’’ desnecessariamente. Por isso, suas intervenções no mercado têm sido pontuais. As medidas terão a intensidade necessária para ir minando os efeitos da crise da argentina sobre o mercado de câmbio brasileiro.
As chamadas ‘‘medidas mais drásticas’’ – um novo choque de juros e fiscal – não estão descartadas, mas, se adotadas, também o serão em ‘‘dosagem devidamente administradas’’ para evitar que se repasse ao mercado a percepção de que o País caminha ‘‘para uma situação muito ruim’’. ‘‘Um aumento das taxas de juros, se adotado, levará em consideração vários outros fatores. Estaremos conduzindo o processo como um maestro conduz sua orquestra, buscando, sempre, a afinação de todos os instrumentos’’, ponderou uma fonte.
G-10Os governadores dos principais bancos centrais mundiais estudaram com atenção na última segunda-feira a situação na Argentina e os riscos de propagação da crise pelo resto da América Latina. Eles concluíram que o Brasil pode ser afetado, segundo declaração do porta-voz do grupo, Edward George, ontem. Independentemente das circunstâncias na Argentina, ‘‘haverá uma impacto no Brasil e nos outros países’’, disse George, resumindo diante da imprensa a análise do G-10 em Basiléa (Noroeste da Suíça). O governador do Banco da Inglaterra ressaltou, entretanto, que a situação era bastante diferente em 1998, quando aconteceu a última grande crise dos países emergentes. (Com France Presse)

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