Brasil investe pouco em nanotecnologia
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sábado, 16 de junho de 2007
Cristina Amorim<br>Agência Estado 
São Paulo - O Brasil está prestes a perder mais um trem da inovação e corre o risco de, em pouco mais de uma década, pagar royalties para usufruir de benefícios que poderiam ser cultivados aqui. Trata-se da nanotecnologia, campo de pesquisa e desenvolvimento de produtos que provoca um alto grau de interesse em outros países, por parte de governos e setor industrial, mas que aqui ainda apresenta uma penetração pífia no mercado.
A palavra nano significa um bilionésimo. Portanto, 1 nanômetro é 1 bilionésimo de metro. Na prática, o diâmetro de um fio de cabelo é de 80 mil nanômetros. É na escala de 100 a 200 nanômetros que os cientistas desenvolvem novos plásticos, medicamentos e tecidos, entre outras tantas aplicações, rearranjando átomos.
O Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE), ligado à Presidência da República, lançou em maio um caderno dedicado ao tema. Segundo ele, o País não faz nem fará parte do primeiro time do setor, formado por Estados Unidos, Japão, Alemanha e Coréia do Sul. Porém, ainda pode conquistar 1% do mercado em 2020.
Para isso, precisa fazer mais - gastar, capacitar, apostar - nesse setor, como têm feito nações que competem com o Brasil, como China, Índia, Austrália e Rússia. Só em pesquisa, os Estados Unidos investiram US$ 1,57 bilhão em 2006; a China, US$ 1,11 bilhão. Os resultados já aparecem nas linhas de produção. Por sua vez, o Brasil investiu 10% desse valor ao longo de seis anos. Foram R$ 150 milhões entre 2001 e 2007 em ações do Programa Nacional de Nanotecnologia, fundos setoriais, aplicação não reembolsável em empresas e editais.
Em 2003, um grupo de trabalho formado no governo concluiu que o País precisaria dispor de R$ 400 milhões, em quatro anos, para apresentar um trabalho robusto na área. O orçamento aprovado foi de R$ 77 milhões para o período.
Passos tímidos - O governo sinaliza positivamente que assume o tema como estratégico. Mas até o caderno feito pelo NAE traz dados desatualizados, como uma estimativa de mercado global em 2020 de US$ 1 trilhão, quando novas projeções indicam que ele pode alcançar US$ 2,6 trilhões em 2012. A construção de redes fomentadas pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) foca a capacitação de cientistas, com incentivo à pesquisa e à preparação de laboratórios.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), hoje um dos principais financiadores científicos do País, contabiliza 80 projetos aprovados sobre nanotecnologia desde 2001, que somam R$ 6,5 milhões.
A construção do conhecimento é parte da inserção independente do Brasil no setor. Desde que se atinja de fato o mercado. ''Faltam iniciativas para acelerar o processo'', diz o coordenador de Micro e Nanotecnologia do MCT, Alfredo Mendes. ''Se o País não acompanha o ritmo, corre o risco de ter produtos obsoletos.''
Problemas - A nanotecnologia nacional incorre no mesmo problema de outras áreas da ciência: a transformação da pesquisa em produto. Ainda que centros de excelência comecem a se consolidar, especialmente no Sudeste, ainda há dificuldade de cientistas e empresários falarem a mesma língua. Alguns poucos produtos nacionais começam a aparecer nas prateleiras. No setor de cosmética, nanoestruturas em cremes levam princípios ativos por meio das camadas da pele. Em eletrodomésticos, uma lavadora adquire propriedade antibactericida - praticamente pelo mesmo preço de outros produtos. Outros lançamentos são previstos para os próximos meses e anos.
Ainda assim, um levantamento feito pelo Ministério de Ciência e Tecnologia indica que existem apenas entre 15 e 20 nanoprodutos nacionais hoje no mercado. No americano, são mais de 500. No ano passado, foram vendidos, em todo o mundo, US$ 30 bilhões desses produtos, segundo a empresa de pesquisas Lux Research.
Segundo o estudo publicado pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) do governo, a nanotecnologia pode gerar empregos e rendimentos. Desde que haja maior interação entre centros de pesquisa e desenvolvimento e empresas. ''Se a comercialização for demorada, empregos e patentes podem ser transferidos até para outros países'', indica o estudo.
Algumas grandes companhias nacionais entraram no setor, como a Vale do Rio Doce, Santista Têxtil, Boticário, Natura e Suzano Petroquímica. Esta desenvolveu, com a Suggar, a lavadora com nanotecnologia. A produção, que era de 40 mil, está em 55 mil. A empresa estuda ampliar a aplicação em depuradores de ar. O Boticário, que trabalha com o tema desde 2004, prepara-se para lançar seu segundo produto neste ano.
Porém, poucas empresas médias e pequenas se arriscam a acompanhar a tendência. É o caso da Incrementha PD&I, parceria dos laboratórios Biolab e Eurofarma e do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas, pode lançar em 2009 o primeiro nanomedicamento brasileiro, um anestésico tópico com nanocápsulas que penetram na pele e levam o composto mais perto da área visada.


