Brasília – O Brasil está exportando para a Argentina sua tecnologia de lidar com crises econômicas. Para as autoridades do país vizinho, que administram hoje uma mistura de Plano Collor com a desvalorização do real de 99, não há melhor fonte a consultar sobre medidas econômicas que o Brasil. Autoridades de outros países também estão sendo ouvidas, mas as contribuições brasileiras tendem a ser maiores por causa da história recente. Há pouco mais de dez anos, o Brasil promoveu um bloqueio de recursos, tal como o ‘‘corralito’’ argentino. Há três anos, o País saiu de um regime de câmbio administrado para o flutuante.
Para o economista e professor da PUC do Rio de Janeiro, José Márcio Camargo, a experiência brasileira de três anos de câmbio flutuante e administração da política monetária é muito importante para os argentinos nesse momento. ‘‘Não quero dizer que o comportamento da Argentina será o mesmo, mas para eles é interessante saber como o Brasil administrou a sua dívida, o que pode ser feito para tentar evitar o overshooting que ocorreu no caso brasileiro’’, exemplifica Camargo que foi procurado por economistas do país vizinho para falar um pouco sobre a situação brasileira.
Outro ponto essencial é a definição de regras bancárias compatíveis com o novo regime cambial implementado no país. ‘‘Dois pontos são fundamentais para a Argentina nesse momento: a reestruturação do sistema financeiro, com pesificação das dívidas e depósitos e o funcionamento do BC num regime de taxa flutuante’’, afirma.
A colaboração brasileira ficou evidente com a visita oficial do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e do diretor de Política Monetária, Luiz Fernando Figueiredo, a Buenos Aires, na segunda semana de janeiro. Eles foram relatar a experiência da adoção do sistema de câmbio flutuante e suas implicações. A visita havia sido acertada dias antes, durante um encontro de presidentes de bancos centrais na Basiléia, Suíça, quando Fraga encontrou-se com o presidente do Banco Central argentino, Mário Blejer.
Mas a ajuda não se resumiu a isso. Desde a visita, Fraga tem sido interlocutor constante de seu colega argentino. Um funcionário do governo brasileiro admitiu que os vizinhos pediram ajuda para elaborar ‘‘uma ou duas’’ medidas específicas de banco central.
Exatamente qual tipo de ajuda o governo brasileiro está prestando é segredo guardado a sete chaves. Todos os integrantes da equipe econômica seguem à risca a orientação de não divulgar nenhuma informação que possa causar constrangimento às autoridades argentinas, ou, pior, dar margem à interpretação de que estariam colocando o Brasil em uma condição de superioridade.
Mas o ministro da Fazenda, Pedro Malan, tem falado com o ministro da Economia argentino, Jorge Remes Lenicov, pelo menos uma vez por semana. Na maioria das vezes, trocam idéias sobre rumos a serem adotados na política econômica.

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