Brasília - O Brasil avalia a possibilidade de restringir a importação de produtos argentinos como trigo, arroz e vinho, utilizando o Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC). O assunto está em análise na Secretaria de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura. Diante da avalanche de importações desses produtos da Argentina, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, teria concordado com a proposta de limitar as importações.
A adoção desse mecanismo, acertado na semana passada entre os governos da Argentina e do Brasil, permite limitar as importações quando houver grande desequilíbrio que afete o comércio ou ameace a produção local. Sua criação causou forte reação contrária no setor industrial brasileiro, que já vinha sendo alvo de medidas unilaterais adotadas pelos argentinos para restringir o comércio. Segundo o Ministério da Agricultura, não há prazo para que se chegue a um posicionamento final.
A proposta não foi bem recebida pela indústria moageira de trigo. O diretor-presidente do Moinho Pacífico e porta-voz da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Lawrence Pih, considerou um equívoco a idéia de impor salvaguardas contra as importações de trigo argentino. Pih lembra que o Brasil não é auto-suficiente no abastecimento de trigo nem é competitivo na produção. Nos últimos anos, o Brasil tem importado cerca de 50% da matéria-prima utilizada para a fabricação da farinha, sendo que mais de 95% do volume vem da Argentina.
Neste ano-safra, por causa de quebra na produção nacional, a importação deve crescer para 55% das necessidades da indústria, algo em torno de 6 milhões de toneladas. ''Salvaguarda significará trigo mais caro'', disse Pih. Segundo ele, o Brasil importa trigo da Argentina por necessidade, já que o país vizinho produz cereal específico para a produção de pães e massas. No Brasil, o Paraná tem a maior produção de trigo pão e o Rio Grande do Sul cultiva mais trigo brando, usado na fabricação de biscoitos. ''O trigo nacional não é equivalente. Se não importarmos da Argentina teremos de importar de outro lugar ou mesmo fazer misturas que comprometerão a qualidade da farinha'', diz o moageiro.
A notícia de que o Brasil pode adotar salvaguardas contra o trigo argentino vem no momento em que os preços do produto estão em alta no mercado internacional, motivada por movimentos especulativos nas bolsas, quebra de produção no Leste Europeu e problemas climáticos nos Estados Unidos. Além da Argentina, o Brasil também importa trigo dos Estados Unidos, mas a logística e, especialmente, o preço tem favorecido o país vizinho. A diferença do trigo argentino e de seu similar americano é hoje de aproximadamente US$ 65 a tonelada.

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