Londres - A forte turbulência que se abateu sobre o mercado brasileiro nada mais é do que a consequência do expressivo posicionamento dos investidores estrangeiros no País, diante da avaliação positiva sobre seus fundamentos econômicos. Para especialistas que atuam na Europa, o acirramento da aversão ao risco levou os aplicadores internacionais a reduzir essa exposição recentemente, pressionando o real e a Bovespa.
''O Brasil está sendo vítima do seu próprio sucesso'', afirmou Thomas Fallon, gestor da francesa La Française des Placements. A frase foi repetida por diversos profissionais consultados pela Agência Estado.
Os especialistas lembram que o País figura entre os preferidos nos mercados emergentes, por seus fundamentos considerados sólidos que o levaram à posição de grau de investimento e de credor externo líquido. Essa avaliação fez com que fundos dedicados a emergentes montassem posições relevantes no País. Agora, como o sentimento do mercado piorou bastante nos últimos dias, os investidores estão tendo de mudar o arranjo de suas carteiras.
Nos últimos meses, o dólar passou a ganhar terreno com a constatação de que a crise iniciada nos Estados Unidos se espalhou para outras economias desenvolvidas, atingindo a Europa e o Japão. A partir daí, a perspectiva de destruição de demanda pesou sobre as commodities, que até então funcionavam como proteção, assim como os emergentes.
''No Brasil, a porta de saída é apertada porque todo mundo tem de passar ao mesmo tempo'', afirmou Henry Stipp, da Threadneedle. ''Mas o motivo da turbulência é o tamanho das posições existentes, é uma questão técnica.'' Por essa razão, o Brasil está sofrendo mais do que outros emergentes nos últimos dias, diante da deterioração da percepção externa. Profissionais notam que, em setembro, o real teve desempenho pior do que as moedas da África do Sul, México e Turquia, por exemplo.
''O Brasil era o queridinho dos emergentes, uma avaliação muito consensual e todo mundo o tinha na carteira'', afirmou um operador da City, lembrando do forte desempenho da Bovespa e do real no último ano.
A avaliação positiva sobre o País especificamente não se alterou. Mas a piora do sentimento no exterior deve seguir como um fator de pressão para todas as nações em desenvolvimento. ''O que mudou foi a percepção de risco global'', diz Stipp, da Threadneedle.
Se a desaceleração mundial for aguda, é natural que o crescimento dos emergentes seja afetado futuramente, afirmam os especialistas. Adrian Pankiw, da gestora britânica Henderson Global Investor, vê inclusive risco de recessão no México, bastante exposto aos EUA, e em países bálticos e do leste europeu.

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