As declarações do governo brasileiro sobre a importância das exportações para a sobrevivência do País, em uma primeira visão, nos remetem a um período recente de nossa história, comandado pela política do então Ministro Delfim Netto, onde exportar era tido como o esforço primordial para o equilíbrio das contas nacionais. Contudo, se pensarmos nas diferenças existentes no cenário mundial entre a atualidade e aquele período, podemos notar que o conteúdo das aspirações de exploração do potencial exportador brasileiro tem leituras muito distintas, que devem ser analisadas para a decisão dos caminhos a seguir.
No cenário atual de convergência das economias mundiais que gerara a criação de Blocos Comerciais, está demonstrado que estão sendo ultrapassados conceitos meramente geográficos, os quais assumem contornos estratégicos que desafiam as distâncias continentais.
Exportar, mais do que uma necessidade econômica, assume principalmente o papel de sobrevivência no cenário político mundial. Em um momento em que as negociações na OMC em busca de critérios e composições regulamentadoras justas para os países em desenvolvimento se encontram em ritmo aquém do esperado, principalmente por dificuldades impostas pelos EUA, Comunidade Européia, Japão e Canadá, notamos, mais do que nunca, que é emergencial a escolha de parceiros comerciais alinhados com os mesmos interesses.
Com o desaquecimento da economia americana, e os reflexos que são sentidos nas várias partes do planeta, a busca por alternativas saudáveis para o comércio entre as Nações ganha um novo impulso. O FMI e o Banco Mundial demonstram que uma nova ordem é buscada, separando os países detentores de tecnologia daqueles que são fornecedores de produtos agrícolas, matérias primas e com indústrias de menor valor agregado; estas indústrias, em sua maioria, são as poluentes.
Sem levantar questões como a produção agrícola de transgênicos, que colocam os países produtores nas mãos dos detentores da tecnologia, a realidade que se apresenta é afuniladora para os países emergentes que desejam a colocação no mercado internacional de produtos com alto valor agregado, que são fabricados com tecnologia avançada. É exatamente nesse sentido que o Brasil e a Rússia encontram sérias dificuldades, frente aos interesses das grandes economias mundiais.
A aproximação dos dois países significa a abertura de um grande mercado, com possibilidades de fortalecimento das suas investidas de alto valor tecnológico. Lembramos, porém, que todo o projeto envolvendo tais estruturas se dá pela confiança mútua e pela irrigação das economias com abertura de vários canais comerciais e financeiros que dêem sustentação às partes, contra as investidas estranhas aos interesses bilaterais.
Mais do que mercados potenciais de interesse recíproco, as relações econômicas entre o Brasil e a Rússia representam o diferencial que pode dar aos dois países a liderança incontestável da comunidade das nações emergentes nas negociações globais. Ressaltamos, ainda, que as aspirações e o processo vividos pelos dois países junto à OMC, sejam para ingresso efetivo, ou a busca de uma regulamentação transparente, depende de um peso que a aliança poderá dar a ambas as nações.
Por outro lado, com os fatídicos acontecimentos nos EUA no último dia 11 de setembro, e o consequente estabelecimento de uma crise econômica de proporções mundiais, tornando mais agudo o quadro recessivo anterior, poderá se consolidar a importância que a agilização do estreitamento de laços entre Brasil e Rússia representará, como alternativa para contornar uma série de problemas que deverão surgir no mercado global.
Nesse contexto, iniciativas de grande importância estão sendo organizadas pelos governos russo e brasileiro, como uma reunião intergovernamental realizada em setembro, em Moscou, bem como a Visita que o presidente Fernando Henrique fará à Rússia em janeiro de 2002, em eventos nos quais a participação de diversos segmentos do setor privado é aberta, bem como estimulada pelos governos russo e brasileiro. A coordenação dos mesmos é feita diretamente entre os dois governos, com a cooperação da Câmara Brasil-Rússia, entidade que vem conjugando esforços de diversos setores produtivos, de prestação de serviços e do segmento financeiro, que em breve estará implantando seu escritório na capital russa.
Neste ínterim, para salientar ainda mais a importância do momento presente para as relações bilaterais, estará visitando o Brasil em viagem oficial no início de dezembro o Primeiro-Ministro da Rússia, Mikhail Kassianov.
Em última análise, lembramos ainda que Brasil e Rússia vivem a necessidade de demonstrar à comunidade internacional a credibilidade necessária a países que, saídos de ditaduras burocráticas, estão trabalhando de forma transparente para contribuir significativamente no cenário econômico mundial.
Concluindo, podemos dizer que o potencial exportador brasileiro, para ser plenamente vivido, depende não só de mecanismos de incentivo à exportação, desenvolvidos pelo governo de nosso país, mas também da solidificação de parcerias comerciais entre nações que permitam uma atuação consistente no mundo globalizado.
- GILBERTO F. RAMOS é presidente da CCIT Brasil-Rússia e vice-Presidente da Federação das Câmaras de Comércio Exterior (FCCE)

mockup