São Paulo - O Banco Mundial calcula que apenas um em cada três brasileiros tenha conta em banco. Na contramão da exclusão do sistema financeiro, os incluídos pagam de spread bancário a diferença entre os juros na captação e os aplicados na concessão de empréstimo uma das maiores taxas do mundo: 49,2%.
No ranking de 130 nações o Brasil é um dos campeões em spread, mas empaca em um modesto 53º lugar no volume de crédito, com 30,24% do Produto Interno Bruto (PIB), atrás de economias emergentes como a China, a Malásia e o Chile. As informações serão divulgadas na próxima semana na Revista Por Sinal, dos funcionários do Banco Central.
''Nesta modalidade perversa de contradição praticada pelo sistema financeiro, sob o olhar complacente do governo Lula, o banco brasileiro é acima de tudo uma casa de corretagem voltada para captar dinheiro do usuário para os cofres do Tesouro e maximar os lucros com títulos públicos'', diz o estudo, que destaca que enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) mantinha nas primeiras reuniões de 2004 a taxa de juros básica, a Selic, a Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) denunciava que os índices praticados pelos bancos não acompanharam na mesma proporção a redução de dez pontos percentuais da Selic registrada em 2003 e ainda subiram: de 7,75%, em dezembro, para 7,92% em janeiro.
''A reportagem publicada na Por Sinal mostra que o spread brasileiro é criminoso'', diz o deputado Rubens Otoni (PT-GO), coordenador do núcleo de economia da bancada petista na Câmara Federal. ''Não surpreende que os bancos queiram ganhar muito sem correr nenhum risco. Surpreendente é que até agora não se viu nenhum movimento do governo no sentido de enquadrar o sistema financeiro à cadeia produtiva'', ataca o administrador de empresas Marcelo Escobar, vice-presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco).
A publicação mostrou ainda que a composição do spread em agosto de 2003, de acordo com dados do Banco Central, é reveladora. Além da carga tributária associada a toda operação de crédito, do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) à Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), uma série de tributos indiretos incide sobre as taxas cobradas pelos bancos. Mas pelo menos 37,45% do spread sobrava ''limpo'' para o banqueiro. ''A reciprocidade exigida na concessão de crédito, como a compra de seguros e de CDBs, não é contabilizada no spread, mas aumenta o lucro dos bancos e encarece o custo do dinheiro'', destaca o economista Rogério Sobreira, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (Ebape-FGV).

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