O Brasil é um dos melhores países do mundo para lucrar com os juros. Nunca os juros pagos sobre movimentações financeiras renderam tanto. As taxas pagas pelas instituições podem beneficiar alguns aplicadores, mas os juros cobrados pelos bancos em empréstimos e financiamentos de seus clientes são considerados um dos maiores do mundo. Aliás, esse tipo de operação é o ''spread'' bancário, traduzido entre a diferença e o custo do dinheiro na hora de o banco captar recursos e o valor que cobra quando o empresta.
Um estudo feito pelo Banco de Compensações Internacionais, apresentado recentemente, revelou que o Brasil é o campeão mundial do spread bancário. No entanto, para definir essa taxa a instituição financeira leva em conta, basicamente, três fatores: a cobrança de impostos (como IOF e CPMF em operações e empréstimos), o custo da inadimplência (que cresceu no último ano) e o custo administrativo do banco. Quanto maior a inadimplência, maior será o spread. ''É um absurdo porque os bancos não perdem nunca. As instituições financeiras estão ganhando muito dinheiro, enquanto os produtores nada'', afirma o economista Ismael Mologni.
Outro item que compõe a definição do spread é o compulsório dos bancos. ''As instituições têm que pagar juros sobre 100% dos depósitos dos seus clientes, mas não podem emprestar cerca de 40% desses recursos captados. Então, os bancos têm que cobrar uma taxa superior para cobrir todos os depósitos e, por isso, os juros são altos'', explica o economista. Ele acrescenta que o compulsório foi criado para não deixar muito dinheiro circulando no mercado, o que contribui para que a inflação permaneça em baixos índices. ''A equipe econômica tem medo do crescimento do País, mas tem que ter habilidade para manter os juros e a inflação baixos'', diz.
Lucros - O spread bancário alto também tem se traduzido em juros altos para os bancos. A prova é que no início deste mês, os principais bancos privados do País anunciaram lucros recordes. O economista explica ainda que o spread também é influenciado pelo risco Brasil. Para manter no País o dinheiro dos investidores internacionais, as taxas de juros pagas são altas, atualmente na casa dos 10% (a taxa Selic descontada a inflação). ''Esse índice asfixia o setor público, que não tem dinheiro para investimentos. Mas a culpa é do próprio governo porque essas taxas são definidas pelo Banco Central'', diz.
Ele acrescenta que o spread é a ressonância das políticas monetária e fiscal praticadas pelo governo. Na política monetária deveria haver uma queda de juros e do compulsório, enquanto a fiscal estudaria melhor os gastos e a receita do governo. ''Sempre há discussões em torno do aumento do salário mínimo e do rombo provocado na Previdência Social. Pagando 10% de juros reais percebemos que o dinheiro existe, só que está indo para o mercado financeiro'', conclui.

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