Economistas, exportadores e o próprio governo têm visões diferentes sobre o futuro das relações comerciais entre Brasil e Argentina após a eleição no domingo (27) do candidato de centro-esquerda, o peronista Alberto Fernandéz, que terá como vice a ex-presidente argentina Cristina Kirchner.

A relação do governo brasileiro com a chapa vitoriosa é muito ruim. Nesta segunda-feira (28), em viagem pelo Oriente Médio, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse que os vizinhos “escolheram mal”, numa referência ao resultado das eleições.

Mal relacionamento entre Bolsonaro e o eleito  Alberto Fernandéz é principal preocupação de exportadores
Mal relacionamento entre Bolsonaro e o eleito Alberto Fernandéz é principal preocupação de exportadores | Foto: Sérgio Ranalli/08-02-2017

Desde o início da campanha na Argentina, Bolsonaro tomou partido do atual presidente, o liberal Maurício Macri, derrotado no domingo. O brasileiro chegou a declarar em visita à própria Argentina que, se a esquerda vencesse, o país se tornaria uma “nova Venezuela”.

No domingo, Fernandéz, que já havia visitado o ex-presidente brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva, na prisão em Curitiba, cumprimentou o petista pelo aniversário pelas redes sociais, o que deixou Bolsonaro irritado. Até agora, o atual presidente brasileiro não cumprimentou o argentino vitorioso como é de praxe nas relações internacionais. E afirmou que não irá cumprimentá-lo.

Para o diretor financeiro da Angelus – indústria londrinense de produtos odontológicos -, Paulo Calixto, não se deve esperar facilidades na relação entre os dois países com o resultado das eleições. “O fato é que o mercado argentino já é um mercado complicado, muito regulado. A tendência é piorar.”

Quando presidente, de 2007 a 2015, a agora vice-presidente eleita, Crsitina Kircnher, implantou medidas protecionistas à economia, o que desagrada os brasileiros. “E agora o Bolsonaro subindo o tom, fica mais complicado.”

Calixto diz que a política sempre interfere na economia. Para ele, Bolsonaro não deveria ter tomado partido na campanha do país vizinho e nem Fernández se pronunciado em favor de Lula. “Eles não estão aqui para saber em quais circunstâncias o Lula foi preso nem o Bolsonaro está lá para saber de fato a situação do país. Não estamos na pele do povo que está sofrendo com a grave crise econômica.”

Bolsonaro também já declarou que o Brasil pode afastar a Argentina do Mercosul caso o país vizinho se recuse a abrir a economia.

FICA PIOR

O presidente do Sima (Sindicato da Indústria de Móveis de Arapongas), Irineu Munhoz, também acredita que a tendência é de piorarem as relações comerciais entre os dois países. “Foi justamente no governo de Cristina Kirchner que foram colocadas muitas barreiras para nós. A participação da Argentina na compra de móveis brasileiros já foi bem maior, mas ainda é importante.”

Segundo ele, o governo Macri foi “um pouquinho melhor” na liberação do mercado, mas também “não mudou muito”.

Munhoz acredita que a postura do presidente brasileiro terá pouco impcato. Para ele, as relações entre os países vão piorar porque a “esquerda argentina é muito próxima da esquerda brasileira”. “Mesmo que Bolsonaro não tivesse dado essas declarações, a relação não seria boa.”

Para o empresário, sob Bolsonaro, o Brasil está “num caminho melhor”. Ele acredita que, no período em que o PT governou o Brasil, foi dada muita importância para países pequenos. “Pelo menos agora estamos nos aliando às maiores economias.”

João Fernando Zogheib, da Paraná Trading, tem opinião contrária. Ele diz que o Mercosul é muito importante e o presidente brasileiro deveria se conter nas declarações. “Quem põe o Mercosul em risco é o Bolsonaro.” Ele não concorda com a política externa brasileira. O empresário elogia os acordos que o presidente tem feito no Oriente Médio, mas vê descuido do governo com o que considera mais importante: levar a cabo o acordo entre Mercosul e Europa. “Acho que, por uma influência dos Estados Unidos, o governo não prioriza a Europa.”

Bolsonaro ainda não visitou o continente com objetivo específico de buscar investimentos como já fez nos Estados Unidos, na China, e no Oriente Médio.

Zogheib esteve na Argentina em maio deste ano a procura de compradores para os produtos que sua empresa exporta. E viu de perto a crise econômico do país vizinho. “É muito grave. Os investidores estão com o pé no freio. As medidas tomadas por Macri não surtiram efeito. E o país precisa de uma solução para a dívida junto ao FMI (Fundo Monetário Internacional).”

PRAGMATISMO

O presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, aposta no pragmatismo da relação entre os dois países. “Há muitas acusações de um lado a outro devido a posicionamentos políticos, mas as economias são muito complementares, uma depende da outra”, justifica.

Antunes lembra que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina que, por sua vez, é a terceira maior parceira do Brasil, após China e Estados Unidos.

Ele ressalta que Bolsonaro já deu declarações agressivas contra a China, mas que recentemente esteve no país asiático aparando arestas e buscando investimentos.

SECRETÁRIO NÃO VÊ RISCO EM ACORDO COM EUROPA

Denise Luna - Agência Estado

Rio - A eleição de um partido de oposição ao atual governo argentino não deverá ter impacto no acordo entre o Mercosul e a União Europeia, avaliou o secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Lucas Ferraz, um dia depois da vitória da chapa de Alberto Fernandéz e Cristina Kirchner no país vizinho.

Segundo Ferraz, o acordo UE e Mercosul teve forte apoio da sociedade argentina e é pouco provável que a nova gestão interrompa o processo. Ele estima que, se tudo correr como o esperado, em meados de 2020 o acordo deverá a ter sua vigência aprovada.

"A convicção (da manutenção do acordo) parte do diagnóstico de que é um acordo muito vantajoso para ambas as partes, Mercosul e UE, e vai trazer vantagens para os consumidores, com produtos mais baratos e acessíveis. Com o tempo, isso vai ficar mais claro", disse Ferraz, que não acredita que as críticas à postura do Brasil em relação ao meio ambiente por alguns países europeus possa prejudicar a aliança. "Toda essa eventual celeuma que foi criada por questões ambientais vai passar e a racionalidade do debate vai ser retomada e ele vai ser aprovado", afirmou.

Já na avaliação de um grande industrial, se Bolsonaro entrar em colisão com Fernández, pode perder oportunidade de negociar com um país que está fragilizado, porque, neste momento, a Argentina precisa muito mais do Brasil do que o contrário. Um sinal de apoio brasileiro poderia estimular o vizinho a se manter em uma agenda mais moderada.

O que preocupa empresários é que as primeiras interações foram conflituosas. Para um representante de um dos maiores setores exportadores, embora o argentino tenha provocado Bolsonaro ao fazer gesto de "Lula Livre" com as mãos, o presidente brasileiro poderia ter relevado, sem reagir no mesmo tom.

Entidades de setores exportadores ainda avaliam o resultado da eleição. Procurada pela reportagem, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) afirmou que não irá comentar o assunto.

Após o resultado da eleição, no domingo, Synésio Batista, presidente da Abrinq (Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos), disse ter recebido telefonema de seus colegas representantes da indústria argentina questionando sobre como continuariam os negócios. Batista afirmou ter assegurado que as relações com os vizinhos não mudam em nada com a nova gestão.

"Se ficarmos com implicância, vamos perder. Os argentinos continuam sendo nossos parceiros, sem essa história de ideologia. Temos um acordo de complementação industrial e vamos continuar. Eles fornecem partes e peças e nós terminamos aqui no Brasil", diz Batista.

Em nota, a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) disse que a eleição de Fernández "traz novamente o fantasma de possíveis barreiras aos calçados brasileiros exportados para a Argentina".

"É natural que exista o receio [da volta do protecionismo]. Durante boa parte de governo de Cristina Kirchner, hoje vice-presidente na chapa eleita, tivemos problemas com a liberação de licenças, com prejuízos que chegaram a mais de US$ 200 milhões", afirmou Haroldo Ferreira, presidente da entidade, em comunicado. (Com Folhapress)

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