Agência Estado
De Montevidéu
Pelo menos um avanço foi conseguido ontem na reunião extraordinária do Grupo Mercado Comum (GMC), dominada pela crise comercial entre Brasil e Argentina: os dois governos vão começar negociações bilaterais para resolver o impasse em torno do comércio de produtos têxteis. Pelo menos isso deverá arejar o ambiente para a reunião de hoje do Conselho do Mercosul, com participação de chanceleres e ministros de Economia e Finanças dos quatro sócios do bloco - Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
A harmonização de políticas econômicas, um tema importante na pauta argentina, deverá ocupar os ministros de Economia e Finanças, mas qualquer efeito importante só deverá ocorrer no prazo de alguns anos.
Os diplomatas argentinos trouxeram a Montevidéu a idéia de um cronograma de harmonização para os próximos dois anos. O presidente Fernando Henrique Cardoso mostrou entusiasmo pela idéia, há alguns meses, num encontro com seu colega Carlos Menem. Fernando Henrique propôs na ocasião um ‘‘pequeno Maastricht’’, numa referência ao acordo de metas econômicas firmado há alguns anos pelos governos da União Européia. Esse acordo fixou as condições para o ingresso na futura união monetária.
A idéia do ‘‘pequeno Maastricht’’ é em princípio tratada com seriedade pela diplomacia brasileira. A fixação de metas comuns de equilíbrio orçamentário, contenção da dívida pública e disciplina monetária é a melhor maneira, comentou ontem um diplomata, de alcançar a estabilidade do câmbio entre os países do Mercosul. Mas tudo isso envolve objetivos para alguns anos de trabalho.
Enquanto se discute a harmonização de políticas, a diferença cambial continua a afetar a vida interna do Mercosul. A diplomacia argentina defende compensações para o impacto causado por diferenças macroeconômicas - eufemismo usado para designar principalmente a desvalorização do real, que barateou produtos brasileiros. O interesse no assunto foi ontem confirmado pelo secretário de Relações Econômicas Internacionais da chancelaria argentina, embaixador Jorge Campbell.
O governo brasileiro rejeita a idéia de compensações: a desvalorização da moeda brasileira, argumentam os funcionários do Itamaraty, resultou de pressões do mercado. Não foi realizada com a intenção de criar vantagens competitivas.
A decisão de negociar a questão dos têxteis foi confirmada pelos diplomatas à tarde, depois de longa conversa, durante o almoço, entre funcionários dos dois governos. Se falhar a tentativa de entendimento, o Brasil poderá acionar o mecanismo de solução de controvérsias do Mercosul, pedindo a formação de um tribunal. ‘‘Estamos seguindo o caminho formal’’, disse o embaixador Campbell.

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