Brasil e Argentina fecharam ontem uma posição de consenso sobre os destinos do Mercosul. Reiteraram que o bloco seguirá com os objetivos de consolidar-se como uma união aduaneira e um mercado comum. O compromisso, que tenderá a colocar fim no discurso favorável à limitação do Mercosul a uma área de livre comércio, servirá como alicerce de um documento que será assinado na próxima sexta-feira pelos presidentes dos quatro países em Assunção, no Paraguai. O desafio da reunião de cúpula, entretanto, será convencer os presidentes do Uruguai e do Paraguai a aprovar o texto
O acordo foi selado pelo ministro argentino das Relações Exteriores, Adalberto Rodríguez Giavarini, que encontrou-se ontem com o presidente Fernando Henrique Cardoso e com o chanceler brasileiro, Celso Lafer. ‘‘A aliança estratégica da Argentina com o Brasil está mais firme do que nunca’’, afirmou Giavarini. ‘‘O Mercosul foi confirmado como estratégico e como tema de política de Estado pela Argentina.’’
A iniciativa deverá a abafar o discurso mantido pelo ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, até a semana passada. Cavallo vinha defendendo uma restrição do Mercosul a seus objetivos de livre comércio e a negociação bilateral da Argentina com a União Européia. Voltou atrás na última quarta-feira, quando apresentou o seu novo pacote econômico às autoridades brasileiras. A solução do problema com a Argentina, entretanto, não resolve todas as pendências. Descontente com o Mercosul, o Uruguai vem defendendo idéias similares às do ministro argentino.
A estratégia do Brasil de afinar os discursos com a Argentina teve seu preço. O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, admitiu que o governo aceitou negociar uma nova proposta da Argentina para o regime automotivo. Giavarini também deixou claro que a Argentina vai insistir na criação de um tribunal de solução de controvérsias no Mercosul. Trata-se de um passo para a institucionalização do bloco – tese que o Itamaraty rejeita.
O novo regime automotivo pleiteado pela Argentina, em princípio, eliminaria toda a fórmula acertada no ano passado. Prevê a liberalização do comércio de automóveis entre os dois parceiros, a redução da tarifa para os carros provenientes de países de fora do Mercosul de 35% para 25% e a aplicação de tarifa zero para caminhões e máquinas agrícolas.
Segundo Lafer, a proposta inicial do Brasil era mais próxima da atual versão apresentada pelo país vizinho. O ministro argumentou que foi por insistência da própria Argentina que o atual regime automotivo adotou regras de administração e de equilíbrio do comércio de bens automotivos entre os dois países. A negociação, entretanto, não deverá ser fácil. Os pontos de atrito serão as tarifas para autopeças, o critério para o cálculo de conteúdo nacional e ainda o tratamento para as máquinas agrícolas. ‘‘Trata-se de uma proposta positiva, voltada para um comércio mais livre’’, afirmou Lafer.

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