Agência Folha
De Buenos Aires
O governo brasileiro alterou sua estratégia em relação ao Mercosul ou, ao menos, quanto à Argentina. Além do acordo sobre o comércio de automóveis – que só vai ser livre em 2006 –, o Brasil aceitou na semana passada discutir regras de proteção para outros setores da indústria argentina.
Em entrevista, o embaixador do Brasil para o Mercosul, José Botafogo Gonçalves, afirmou que a decisão de fechar um acordo partiu de uma análise fria e de longo prazo. ‘‘Não temos interesse em mandar essa vaca para o brejo’’, disse ele, referindo-se à Argentina. Traduzindo: ‘‘O Brasil reconhece que, se puxar o tapete agora, a indústria argentina morre’’, explicou.
O governo brasileiro aceitou o pedido dos argentinos para analisar regras de comércio administrado para setores problemáticos da sua indústria, como frangos, calçados, aço, papel e tecidos. Tal entendimento, se diminui a tensão no bloco, significa atraso na agenda de liberação do comércio no Mercosul. Isto é, as trocas de certos produtos entre Brasil e Argentina ainda
estarão sujeitas a normas e taxações alfandegárias que impedem o livre comércio – como aquele que ocorre entre os Estados do Brasil, por exemplo.
Frango, aço, papel e sapato. Esses produtos haviam ingressado na era do livre comércio em janeiro de 99. Agora voltarão a ter sua circulação limitada. Durante todo o ano passado, o Brasil não quis dar ouvidos aos apelos da Argentina.
Autoridades e empresários argentinos no bloco comercial afirmavam que a desvalorização do real, no início de 99, havia imposto a necessidade de repensar regras, pois os produtos brasileiros ficaram mais baratos. A Argentina, que vinha tendo grandes superávits comerciais com o Brasil (mais vendia do que comprava), protestou.
Apesar das concessões, Botafogo Gonçalves rebate a idéia de que isso represente retrocesso para o bloco. ‘‘Não estamos fazendo isso por concessão ou excesso de generosidade’’, afirmou. Segundo o embaixador, é um fato objetivo que a indústria da Argentina está em situação mais frágil. ‘‘Realmente há setores em dificuldades. E é claro que boa parte disso era anterior à desvalorização do real’’, observou.
Mas o embaixador disse que foi instruído pelo governo brasileiro para exigir que esses novos mecanismos de proteção à indústria argentina tenham também um caráter de estímulo à eficiência. Esse foi, segundo ele, o critério que prevaleceu no acordo automotivo e que inspirará os demais regimes de transição. Botafogo Gonçalves considera que o novo governo argentino é mais positivo para o Mercosul do que era a administração do ex-presidente Carlos Menem.Governo vai analisar regras de comércio administrado para setores problemáticos da indústria argentina, como frango e aço
Arquivo FolhaRUMO AO FUTUROAcordo automotivo fixou regras entre os dois países e prevê que em janeiro de 2006 haverá livre comércio

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