O volume de grãos desperdiçados pela agricultura a cada safra, no Brasil, corresponde à quantidade de comida necessária para alimentar todos os brasileiros que passam fome. O comentário é de Eugênio Stefanelo, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e técnico da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab).
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) permitem afirmar que a solução para o problema da fome depende da distribuição anual de 10 milhões de toneladas de alimentos. No campo, 10% dos grãos produzidos são desperdiçados durante a colheita, o transporte e o armazenamento. ''Se o País produz 120 milhões de toneladas, 12 milhões de toneladas são perdidas'', deduz Stefanelo.
As perdas de produção na cultura da soja ficam em torno de 6%, segundo o pesquisador Nilton Pereira da Costa, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja) em Londrina. Na última safra, 36 milhões de sacas ficaram pelo chão das lavouras, estradas e armazéns. Enquanto a perda tolerável é de 0,75 saca por hectare (ha), o País perde, em média, duas sacas por ha.
Isso significa que a perda de 1,25 saca por ha poderia ter sido evitada. O desperdício, que corresponde a 22,55 milhões de sacas, resultou em prejuízo estimado em R$ 1,125 bilhão.
O dinheiro é suficiente para comprar 7,5 mil colheitadeiras, 22,5 mil tratores ou 75 mil carros populares. Permitiria, ainda, adquirir 112,5 mil casas populares ou 7,5 milhões de cestas básicas, conforme comparação feita por Costa, que é coordenador do Programa de Redução de Desperdícios na Cultura da Soja no Brasil.
No caso do milho, o prejuízo é ainda maior. Stefanelo revela que a cultura não conta com uma rede armazenadora adequada e, por isso, perde de 10% a 15% da safra.
Se a produção estimada de 42 milhões de toneladas do cereal se confirmar, 6,3 milhões de toneladas ficarão pelo caminho. Considerando a cotação média de US$ 90 por tonelada de milho no mercado internacional, isso representa um prejuízo de US$ 567 milhões. Dos 22 milhões de toneladas de café, trigo, arroz, feijão, triticale e outros produtos da safra brasileira deste ano, 2,2 milhões de toneladas não chegarão ao mercado.
O técnico da Conab comenta que o maior desperdício ainda é verificado na colheita. A má regulagem das máquinas e a incorreta velocidade de operação são as principais causadoras das perdas.
No transporte, um grande fator de desperdício são os vazamentos por má vedação da carga. ''Basta olhar na beira das rodovias durante período da safra para confirmar que muita coisa fica pelo caminho'', diz Stefanelo.
Por fim, a falta de cuidados na armazenagem também prejudica o rendimento da atividade agrícola. De acordo com Stefanelo, os produtos estocados muitas vezes ficam sujeitos à ação de insetos e pragas. ''Esse problema é sério no caso do milho, do sorgo e do trigo'', alerta, acrescentando que a falta de cuidado com a umidade e a utilização de equipamentos inadequados contribuem para aumentar as perdas. ''A contenção do desperdício depende apenas de maior cuidado no manejo'', alerta.

mockup