CINGAPURA - Sob pressão para acelerar e ampliar a abertura da economia, que ainda não atingiu a competitividade internacional desejável na área industrial, e confrontado com crescentes déficits comerciais, o governo brasileiro pretende jogar pesado para obter garantias de liberalização dos mercados agrícolas dos países industrializados durante a primeira reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), que começa hoje em Cingapura.
‘‘A abertura dos mercados agrícolas é uma prioridade estratégica para o Brasil’’, disse o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, que chefia a delegação do País à reunião. ‘‘A agricultura é a grande variável para aumentar as exportações.’’
A aposta do governo numa maior abertura para produtos agrícolas foi aplaudida pelo presidente do Conselho de Administração da Sadia, Luiz Fernando Furlan. A Sadia é uma das principais exportadoras brasileiras de carnes que integra a delegação brasileira como representante da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Associação dos Exportadores Brasileiros. ‘‘Este é o primeiro governo do Brasil que desenvolve uma visão sobre o papel da agricultura no desenvolvimento e compreende que é preciso criar e expandir mercados para que as exportações fluam’’, disse Furlan.
A insistência na abertura agrícola será também usada como tática pelo governo, em Cingapura, para responder às pressões dos ricos por uma liberalização ampla e rápida para produtos de informática, de telecomunicações e cerca de 400 itens farmacêuticos. A agricultura é uma área na qual os países avançados, especialmente a União Européia (UE), não honraram os compromissos de liberalização que assumiram durante a Rodada Uruguai do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), uma negociação de sete anos que resultou na criação da OMC, em abril de 1994. ‘‘A UE e os Estados Unidos são muito mais protecionistas na agricultura do que nós somos na indústria’’, disse Pedro de Camargo Neto, pecuarista paulista que também integra a delegação brasileira, como representante da Confederação Nacional da Agricultura. Segundo Camargo, o País pode dobrar suas exportações agrícolas se caírem as barreiras.
Até hoje apenas cinco países, entre eles o Brasil, apresentaram à OMC a notificação de cumprimento dos compromissos de eliminação de barreiras não-tarifárias e de subsídios às exportações de produtos agrícolas, bem como a redução de tarifas, que assumiram na Rodada Uruguai.
‘‘Nosso objetivo é iniciar já em 1997 as negociações para reduções adicionais das barreiras ao comércio agrícola, que estão previstas para 1999 na agenda regular da OMC’’, disse Lampreia. O representante do Brasil na OMC, embaixador Celso Lafer, participou ontem de uma reunião do grupo de Cairns, que congrega grandes exportadores de produtos agrícolas, para articular uma posição comum e destacar esse objetivo na declaração da reunião.

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