São Paulo - O governo brasileiro decidiu mudar de estratégia nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre o fim de subsídios para produtos agrícolas. Vai centralizar agora as discussões para eliminar os subsídios embutidos nas exportações de produtos agrícolas e agropecuários, como carne e açúcar. Segundo o governo, países como a França têm usado esse mecanismo para vender mercadorias no Leste Europeu.
A informação foi dada ontem pelo secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Mario Mugnaini, que se prepara para participar de reuniões da OMC a serem realizadas em Montreal, no Canadá, entre 28 e 30 deste mês.
''Vamos aceitar, por enquanto, os subsídios de países como a França nos seus mercados internos. Mas não vamos aceitar que eles subsidiem a venda de seu açúcar para países como a Romênia'', disse Mugnaini.
A decisão demonstra um recuo do governo na sua árdua batalha, travada há anos, contra qualquer subsídio agrícola. Os centros das disputas são os Estados Unidos e a União Européia. ''Vamos trabalhar firme agora na eliminação dos subsídios para as exportações'', disse Mugnaini.
Segundo ele, o custo de produção do quilo de açúcar de beterraba na França é de US$ 0,80. Mas o governo francês concede subsídios que permitem que o preço de mercado do produto seja de US$ 0,40. Valor semelhante é usado nas vendas externas. No Brasil, o custo de produção do açúcar de cana-de-açúcar é de US$ 0,33. O produto é vendido por US$ 0,35.
''Evidentemente temos uma vantagem positiva para exportar nosso açúcar. Não queremos perder potenciais mercados porque países como a França também subsidiam a venda de seu açúcar exportado'', afirmou Mugnaini. A reunião em Montreal é uma prévia da rodada de negociações da OMC que ocorrerá em setembro, em Cancún, no México.
Para Antônio de Lacerda, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), a decisão do governo de centrar fogo nos subsídios pode demonstrar um recuo estratégico. ''Como as negociações para eliminar os subsídios em geral não têm dado certo há tempos, o governo decidiu centralizar o assunto nas exportações para terceiros países'', disse Lacerda.
A União Européia gastou, somente no ano passado, cerca de 150 bilhões em subsídios para produtos como açúcar, carne, trigo e laticínios.
Para Roberto Gianetti da Fonseca, economista e ex-secretário executivo da Camex, a estratégia do governo está correta. ''É muito mais fácil combater os subsídios para exportação de produtos, pois a OMC proíbe claramente esse instrumento'', disse Gianetti. Já os subsídios para o mercado interno são permitidos pela OMC em determinados casos.

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