Se os produtos agrícolas brasileiros continuarem encontrando barreiras para entrar nos Estados Unidos ou Europa, O Brasil bloqueará a rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) de novembro próximo no Qatar, e abandonará as negociações bilaterais.
Segundo declarou ontem, no Rio de Janeiro, a um grupo de jornalistas, o ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, o ‘‘Brasil não está disposto a abrir sequer mais um milímetro seus mercados ou negociar se o comércio internacional não se comportar com uma via de mão dupla’’.
Num discurso radical, o ministro assegurou que a agricultura é prioritária para o Brasil e que, por isso, o país não negociará com a União Européia (UE) nem participará na criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) se seus produtos continuarem sendo discriminados no comércio internacional.
‘‘Em nossas conversações com a UE, a agricultura é determinante, já que ela recebe 45% de nossas exportações; com o Alca não é tanto, mas se os Estados Unidos não compram nossos produtos, não entramos na Alca e, se o Brasil não entrar, não haverá ALCA’’, estimou, firme.
Segundo Pratini de Moraes, a proposta feita pela UE há duas semanas em Montevidéu, para liberalizar o comércio bilateral num prazo de dez anos, incluindo, com restrições, os produtos agrícolas, é um ‘‘primeiro passo, ainda tímido, mas que está na direção certa’’.
‘‘Estou certo que levará a uma negociação com vantagens para os dois lados. Vejo uma clara mudança na atitude da Europa, que já admitiu estar revisando sua política agrária comum’’, assegurou.
Segundo o ministro, a ‘‘próxima batalha’’ do Brasil será em novembro no Qatar, onde a OMC tentará reativar as negociações interrompidas em Seattle (Estados Unidos) em 1999. ‘‘Nossa posição é a mesma de então: se nossos produtos agrícolas não têm o papel que merecem, não há rodadas de negociações’’, frisou.
Pratini de Moraes destacou que o Brasil pode competir em termos de produtividade com os Estados Unidos e Europa, mas não com o Tesouro de Washington ou Bruxelas. ‘‘Os países gastam um bilhão de dólares por dia em subsídios à exportação agrícola. Isso baixa os preços dos produtos no mercado internacional e prejudica nossas exportações’’, criticou.
Para o ministro brasileiro da Agricultura, atualmente, mais perigosas que as barreiras alfandegárias são as não-alfandegárias, tais como as fitossanitárias, ‘‘com as quais se pode manipular o comércio em função dos interesses dos produtores locais, sem qualquer argumento racional’’.
O ministro recordou o conflito entre o Canadá e Brasil produzido no começo deste ano, quando o país norte-americano argumentou que o Brasil poderia ter o mal da vaca louca e suspendeu suas importações de carne. Passaram-se semanas até que as autoridades brasileiras demonstrassem que seu gado bovino come apenas ração de origem vegetal e não tem focos da doença.

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