Brasil, ainda a melhor opção
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domingo, 03 de agosto de 1997
Antoninho Marmo Trevisan 
Vai dar trabalho convencer os investidores, donos de prósperos negócios pelo mundo afora, que o Brasil vai mal. Eles acham que vai bem, e muito bem. Aliás, não acham, enfiam a mão no bolso e contratam consultores para avaliar o melhor empreendimento, ou para dizer onde localizar sua fábrica neste País. Os que já estavam com seus estudos avançados participam de leilões e compram empresas estatais de energia elétrica ou desembolsam mais de 2 bilhões de dólares apenas pelos direitos de explorar telefonia celular na região metropolitana de São Paulo. E se o governo demonstrar sua capacidade de fazer os ajustes fiscais, que drenam parte da força nacional, deve vir muito mais por aí.
É um momento delicado este que atravessamos. Propício para especulações e uma tentação para que o governo introduza medidas de resultados imediatos e aparentemente salvadores. De repende, moedas de nomes estranhos, o bath, o peso filipino, a rupia e o ringgit malaio perturbam o nosso Real, tiram o sono de muitos brasileiros e levam autoridades monetárias à beira de um ataque de nervos. A desvalorização das moedas da Tailândia, da república das Filipinas, da Indonésia e da Malásia e a especulação que se seguiu nesses países repercutiram por aqui.
Parece que o ataque especulativo ocorre quando os detentores de uma dada moeda, por acreditarem que ela se encontra sobrevalorizada, vendem suas posições nessa moeda, forçando a queda. Em geral, a resistência a um ataque especulativo dá-se mediante o uso de reservas internacionais, combinando ações do Banco Central do país alvo, com outros bancos centrais. Em certos casos, cria-se um fundo de estabilização. Percebe-se que o ponto nevrálgico é apostar que o pais não terá como reagir, porque, fragilizado principalmente pelas suas baixas reservas, capitula através da desvalorização da sua moeda. E o ganho do especulador é contabilizado.
Uma outra forma de resitir é aumentar os juros pagos ao capital financeiro, atraindo mais divisas. Mas isso tem um preço. Produz-se recessão interna, quebram-se empresas endividadas e colocam-se empregados na rua.
É como num jogo. Quem tem cacife aposta pesado. Quem não tem,
blefa ou o paga o prejuízo.
Mas o Brasil tem cacife. Pelo menos em termos de reservas cambiais. São 57 bilhões, mais de dez vezes o volume médio verificado no final dos anos 80. Dá para bancar quase 12 meses de importações. As reservas dos tigres asiáticos garantem pouco mais de 5 meses.
Eles são, contudo, imbatíveis em termos de desenvolvimento. Crescemos 4% contra 7% ou 8% de crescimento contínuo dos nossos parceiros asiáticos. Nós estamos na fase de atrair investimentos e ganhar escala na produção para então, sim, crescer e exportar mais, o que talvez explique a estratégia do governo de combinar câmbio sobrevalorizado, aparentemente sem ceder aos ataques especulativos, com a decisão de amortizar dívida pública usando o dinheiro que entra das privatizações.
Quando se analisa a cronometria dos fatos, nota-se que o ataque iniciou-se pela Tailândia. De fato, alguns dos piores indicadores ligados ao câmbio estão com este país.
Especialmente quanto à balança comercial negativa e ao montante de investimentos diretos. Em contrapartida, a Tailândia detinha o maior saldo de divisas: quase 38 bilhões de dólares. Concluiu-se que divisas elevadas por si só não afastam o especulador. Talvez porque as divisas representem estoque de moeda e são finitas. Já o que garante a consistência das operações é o fluxo de caixa das transações comerciais e financeiras que podem ser positivos ou apontar para isto no médio prazo.
A palavra parece ser credibilidade conjugada com ações que demonstrem a capacidade de atingir objetivos. No caso brasileiro, vários fatores, quando postos na balança, pendem para o nosso lado. Somos um país naturalmente receptor de capitais em razão do gigantesco mercado interno ainda tão pouco explorado e atendido. Nosso comércio exterior é tremendamente reduzido: 14% do PIB, contra cinco ou dez vezes mais o dos tigres asiáticos. Nosso acervo de empresas e concessões a privatizar pode atingir de duzentos a trezentos bilhões de dólare snos próximos dez anos.
Temos, portanto, ativos classe A, de alta liquidez internacional que devem se somar a meia centena de bilhões de dólares de reservas cambiais.
Não quer dizer que podemos dormir tranquilos. O capitalismo pode ter se firmado como o menos pior dos regimes, mas é onde se joga mais pesado. Quem, como nós, tem uma dívida federal interna que ronda a casa dos 200 bilhões de reais, que era quarenta vezes menor até 1993 e que pelo terceiro ano consecutivo gera déficits fiscais de 4% a 5% do PIB, tem mesmo é que ajustar suas contas e reformar o que for necessário. Os especuladores buscam razões para seus ataques. Às vezes, por puro blefe. A questão é não abrir a guarda demais. Quem transforma imposto provisório em permanente ou iventa fundo de emergência para durar poucos meses e estica até o ano 2000, francamente, não trabalha para aquietar especulador.
ANTONINHO MARMO TREVISAN é presidente da Trevisan Auditores e Consultores


