Caso os EUA concedam mesmo os subsídios de US$ 170 bilhões a seus agricultores ao longo dos próximos dez anos, o governo brasileiro deixará de vez de participar das negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). O alerta foi dado ontem pelo secretário nacional de produção e comercialização do Ministério da Agricultura, Pedro de Camargo Neto.
O representante do Brasil nas negociações de abertura das fronteiras à agricultura reuniu-se há duas semanas justamente com David Hegwood, em Washington, para tentar convencê-lo a desistir daquele projeto. Não saiu do encontro satisfeito. ''Hegwood afirma que vai adequar os subsídios às normas da Organização Mundial do Comércio (OMC). Isso é impossível. Não há como o órgão internacional aprovar tanto dinheiro para a defesa da agricultura de um país'', afirmou.
A pressão contra os novos subsídios, segundo Camargo Neto, é fundamental para garantir que os produtos agrícolas do Brasil consigam de fato ganhar mais espaço no mercado norte-americano. ''Não há como competirmos com o apoio que os norte-americanos dão e querem dar aos seus produtos. Aqui no Brasil, o pouco de ajuda que o governo oferece à agricultura está por volta de R$ 1 bilhão ao ano.''
Isso não significa que o Brasil é um ícone do livre mercado e das fronteiras abertas. O que falta por aqui mesmo é dinheiro para subsidiar a produção. Além do Pronaf (Programa de Agricultura Familiar), que concede empréstimos a juros baixos e cobra apenas parte do dinheiro emprestado a pequenos produtores, o governo adota também uma política de preços mínimos.
Com ela, a União teoricamente se compromete a subsidiar agricultores, caso os valores de mercado de alguns grãos estejam abaixo do preestabelecido nos acordos negociados com os representantes dos produtores. ''Ocorre que não temos verbas para bancar as diferenças de preços e somos sempre obrigados a baixar os valores predeterminados.'' Camargo Neto embarca hoje para Qatar, a onde participa da 4 Conferência Ministerial da OMC. Ele vai preparado para reafirmar a atual posição brasileira. ''Os poucos subsídios que temos estão dentro das regras da OMC. É difícil aceitar o apoio que os Estados Unidos dão para sua agricultura. Somente para a soja são destinados US$ 2,5 bilhões por ano.''

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