O brasileiro ainda acredita naquele homem que, por décadas a fio, criticava os juros altos, defendia a mudança do modelo econômico ortodoxo e denunciava a fórmula financista adotada por sucessivos presidentes da República. Hoje, a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua na casa dos 70% de aprovação. Mais de 50% da reversão da expectativa negativa do mercado (o risco Brasil estava em 2.200 pontos em outubro de 2002 e hoje a medida está na máxima de 575 pontos-base) se deve à firmeza com que o governo pratica a âncora fiscal. Entretanto, já surgem divergências e o prenúncio de desapontamentos e decepção. Principalmente, na condução da política macroeconômica. ‘‘ Não se combate a inflação com juros altos e sim com ganhos de produtividade’’, afirma convicto o presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Rodrigo Rocha Loures.
  Porta-voz do empresariado paranaense, Rocha Loures aponta sua fórmula para o desenvolvimento econômico: ‘‘Baixar os juros da taxa básica ao nível equivalente de 3% a 5% (os juros foram mantidos em 16,5% em janeiro pelo Banco Central), favorecendo a oferta de crédito, consumo e a produção’’. Para ele, isto colocaria a economia do País em regime de crescimento. ‘‘Hoje está havendo uma miopia na política macroeconômica’’, critica, acrescentando que ‘‘o governo está com medo de crescer porque tem receio da inflação e usa os juros como ferramenta para esfriar a economia’’. Segundo o presidente da Fiep, a procura no mercado interno está inibida por conta desta política. A estagnação econômica é visível. ‘‘Sendo assim, não temos crescimento. É um círculo vicioso’’, considera.
  Prova paranaense de que o desenvolvimento econômico brasileiro está na retranca pode ser demonstrado pelas decisões do grupo empresarial Atlas, de Cláudio Petrycoski. Com a matriz – Atlas Fogões – sediada em Pato Branco, no Sudoeste do Estado, e 2.070 empregados distribuídos em três unidades fabris no Rio Grande do Sul, Bahia e Paraná, o grupo adiou por seis meses a inauguração da Atlas Sul – ex-Enxuta, em Caxias do Sul (RS), que produz a linha Wash com 250 empregados. ‘‘Optamos por isto em razão de não haver consumo’’, explica o empresário. De maio a novembro do ano passado a fábrica permaneceu com sua capacidade de produção totalmente ociosa. ‘‘Começamos a produzir somente em novembro’’, disse Petrycoski.
  Além disso, na Atlas Fogões, onde trabalham 1,5 mil funcionários, desde o segundo semestre do ano passado não há reposição de pessoal. A rotatividade média mensal gira em torno de 60 a 70 operários. ‘‘Acredito que pior do que está, não pode ficar. Eles (governo) têm que melhorar’’, imagina o empresário. No mesmo ritmo lento caminha a Atlas Nordeste, montadora de fogões, com 120 funcionários em Feira de Santana (BA).
  Enquanto no País, a ociosidade na indústria eletroeletrônica gira em torno de 18% comparativamente ao governo FHC, a capacidade ociosa nas indústrias paranaenses, segundo a Fiep, atingiu 27% em dezembro. ‘‘Esse índice pode crescer, mas também pode zerar se houver aumento da produção. O que é melhor, sem aporte de recursos’’, salienta Rocha Loures. Seu raciocínio é simples: ‘‘Se a taxa de juros baixar, aumenta o consumo, reduz o custo financeiro e melhora a renda familiar’’.
  Ao contrário do que prega a equipe de Lula, o modelo econômico da maneira como está, segundo o presidente da Fiep, vai manter alto o nível de desemprego. No Paraná, este índice beira os 18% no setor industrial.
  Produção e Emprego parecem ser os enigmas que precisam ser desvendados em 2004. Para se ter uma idéia, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou no começo do ano que a indústria brasileira apresentou um inexpressivo aumento de 0,1% na produção industrial no ano passado e uma queda no setor de bens não-duráveis (farmacêuticos, alimentos, vestuário e calçados) de 7,1%, em novembro do ano passado a igual mês do ano anterior.
  Há uma grande disposição do governo para a retomada do crescimento econômico. Para o governo, o setor de habitação e saneamento terá papel preponderante na criação de empregos e deverá destinar R$ 12,15 bilhões a investimentos nestas áreas, anunciou no início de janeiro o ministro das Cidades, Olívio Dutra. A estimativa, segundo o ministro, é de que poderão ser criados 1,4 milhão de empregos diretos e indiretos.
  Dos R$ 12,15 bilhões, que o ministro das Cidades planeja investir, R$ 1,95 bilhão está previsto no Orçamento da União. Mas, ainda na última sexta-feira a equipe econômica garantiu com o presidente Lula o corte antecipado no Orçamento, de R$ 6 bilhões em investimentos, até que se tenha a garantia da arrecadação. O presidente resistiu, mas aceitou depois que o ministro da Fazenda Antônio Palloci o convenceu da liberação antecipada de recursos solicitados por parlamentares em emendas. Os recursos, através de uma programação financeira, começam a ser liberados desde já. Este é um ano atípico em que os repasses só podem ser feitos até junho por causa das eleições.
  Em uníssono com o presidente da Fiep está o economista José Pio Martins, que também é professor e vice-reitor do Centro Universitário Positivo (Unicemp) em Curitiba. ‘‘Desse jeito, o País não tem chance de sair dessa encalacrada’’, sentencia. Em sua análise conjuntural, o papel mais importante de um governo é criar um ambiente que estimule o crescimento das empresas brasileiras. ‘‘O governo precisa criar desesperadamente este ambiente’’, alega. Na lista de prioridades estão liberdade econômica, regras claras e simplificação das relações trabalhistas. ‘‘Chega de futuro, a hora é agora’’, complementa.
  Tempo pode ser solução, mas às vezes, pode um ser problema quando decisões não são tomadas no momento certo e na hora certa. ‘‘Parece que a equipe econômica do presidente não aplica medidas de longo prazo porque considera apenas o horizonte de quatro anos pela frente’’, observa Martins. ‘‘Por isto, não tomam medidas de longo prazo’’, afirma. Segundo ele, para um crescimento da produção a 5% ao ano é necessário que o País invista em torno de 30% do PIB.
  Outro vetor que está sendo relegado a um segundo plano, de acordo com Martins, é a complicada legislação trabalhista brasileira. ‘‘No Brasil é mais fácil desfazer um divórcio do que uma relação de emprego’’, avalia. O economista sugere que a relação trabalho x capital seja simplificada para que a contratação de pessoal seja estimulada. ‘‘O Brasil se dá ao luxo de ter uma legislação do trabalho mais complexa do que a americana’’, destaca. Para o economista, os encargos tributários sobre a folha de pagamento no País são muito altos (INSS, salário-educação e Senai, entre outros).
  Familiarizado com os corredores do poder em Brasília, o ex-presidente do Banco do Brasil (BB), o economista Luiz Antonio Fayet, que também foi deputado federal, compara as afinidades do ex-ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, com as dos ministros da Fazenda brasileiros Pedro Malan e Antônio Palocci, e os coloca no mesmo front. ‘‘Eles têm a mesma linha ortodoxa’’.
  A comparação de Fayet serve para reafirmar sua posição contrária à atual política econômica, onde o câmbio é grande vilão. ‘‘Decididamente, ela (política econômica) piorou. Está totalmente equivocada e conseguindo ser pior do que a do governo FHC’’, opina. Para o ex-presidente do BB, Lula deveria se assessorar melhor na área econômica. ‘‘A atual política econômica é incompatível com o discurso do presidente’’, diz.
  Três fatores estão em desequilíbrio, segundo Fayet: o dólar artificialmente barato, a elevada carga tributária e a infra-estrutura deficitária. ‘‘Para fingir e dizer que as contas estão equilibradas temos tomado empréstimos, desnacionalizado a economia e beijado os pés do capital especulativo’’, comenta. A solução para Fayet seria mudar a política econômica sem descumprir contratos e abrir o diálogo com outros segmentos do PT.

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