Agência Folha
De São Paulo
A Brahma promete baixar o preço da cerveja em, pelo menos, 5% se o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) aprovar a criação da AmBev – a megacervejaria que surgiria da união entre Brahma e Antarctica. ‘‘Topamos qualquer acordo’’, diz Marcel Telles, presidente da Brahma. ‘‘Vamos reduzir em 5%, no mínimo, o preço da cerveja e podemos garantir que a redução é para sempre.’’ Depois de dar o desconto, a cervejaria só poderia reajustar preços de acordo com algum indicador acertado com o governo, como o IGP-M, índice de inflação da Fundação Getúlio Vargas.
Além de se comprometer com a redução definitiva de preços, a Brahma decidiu contratar economistas de Chicago, nos Estados Unidos, para rebater o relatório sobre a fusão, divulgado há dez dias pela Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae). O relatório, que serve de base para o julgamento do Cade, sugere a aprovação da fusão com a Antarctica, desde que a Brahma abra mão da marca Skol, hoje líder de mercado. ‘‘Seria a primeira fusão em que a empresa termina menor do que quando começou’’, ataca Telles.
Telles diz que os diretores da Seae ‘‘montaram um circo’’, num momento em que o governo prepara a criação de uma nova agência de defesa do consumidor. ‘‘Peruada todo mundo pode dar’’, ironiza. ‘‘A Seae deu um palpitão, é bonito, sai bem na mídia, mas não tem consequência para eles. O Cade, que é a última instância, será cobrado para o resto da vida pela decisão.’’ Telles também critica a Kaiser, principal adversário da criação da AmBev. ‘‘Eles dizem que querem comprar a Skol, mas o balanço da Kaiser é frágil, e o resultado, muito ruim’’, diz o presidente da Brahma. ‘‘Mas, como no fundo a empresa é da Coca-Cola...’’. Marcel Telles deu a seguinte entrevista:
Pergunta – O relatório da Seae aprova a união da Brahma com a Antarctica, desde que a Brahma abra mão de outra marca, a Skol. Isso inviabiliza a fusão?
Marcel Telles – A principal razão da fusão é montar uma das únicas empresas brasileiras com porte para competir internacionalmente. Aparentemente, a Seae nem percebeu o que estava fazendo. Hoje, a Brahma (incluindo a Skol) tem 49% do mercado. Pela proposta da Seae, a empresa (Brahma e Antarctica, sem Skol) teria 42%. Seria uma fusão portuguesa. A primeira fusão que acaba menor do que quando começou.
Pergunta – O relatório da Seae diz que, se a Ambev subir o preço da Skol, o consumidor vai comprar Brahma ou Antarctica e não Kaiser ou Schincariol, o que configura monopólio de mercado...
Telles – É um achismo imperdoável. Ele deve tomar Brahma e Antarctica e pensa que se não tiver Brahma tem que beber Antarctica ou vice-versa. Não é isso o que acontece no mercado. Um estudo da Nielsen mostra que só 15% dos consumidores de cerveja batem o pé quanto à marca de cerveja. O consumidor tem baixíssima fidelidade à marca e alta sensibilidade a preço. Os marketeiros não gostam de ouvir isso.
Pergunta – Estamos num momento de transição, em que a Seae e o Cade devem dar lugar a uma nova agência de defesa do consumidor. O sr. acha que essa mudança pode ter influenciado o resultado na Seae?
Telles – A Seae, em sua história, preparava um relatório e passava para o Cade confidencialmente, sem barulho. Desta vez, montaram um circo. Chamaram a imprensa, e a Kaiser até montou um link direto, via satélite. Só posso imaginar que houve vontade de algo mais. A Seae deu um palpitão, é bonito, sai bem na mídia, mas não tem nenhuma consequência para ele. O Cade, que é a última instância, será cobrado pelo resto da vida. Peruada todo mundo pode dar.
Pergunta – A AmBev disse à Seae que a fusão vai trazer redução de 14% nos custos. Como?
Telles – A capacidade de produzir as marcas nas mesmas fábricas dá um ganho colossal. Hoje, a Brahma tem fábrica no Maranhão, e a Antarctica, na Paraíba. As empresas precisam transportar cerveja 600 quilômetros para vender nas duas praças. Esse será um ganho de eficiência. Outros ganhos devem vir do melhor aproveitamento do parque fabril. Além disso, vamos cortar custos administrativos porque as empresas só precisam ter uma cabeça.
Pergunta – Qual é a garantia de que os preços vão cair?
Telles – A primeira razão para acreditar é estrutural. Teríamos um enorme ganho de eficiência se juntássemos as distribuidoras das empresas, mas pretendemos manter a separação. A concorrência entre os revendedores garante a transferência de ganhos de preço para o consumidor. A outra razão é que topamos qualquer acordo. Teremos ganhos de eficiência que vão nos dar redução de 10% a 15% nos custos. Não tem problema nenhum em dizer que o preço da cerveja vai cair 5%. Podemos garantir que isso será para sempre. Em termos reais, o preço ficará sempre 5% abaixo do que é praticado hoje.
Pergunta – Um documento da concorrência prevê o fechamento de nove fábricas e a demissão de oito mil funcionários com a fusão. O que deve ocorrer?
Telles – Um corte de oito mil empregados equivaleria a demitir todo o quadro da Antarctica. É óbvio que isso não vai acontecer. Estamos em contato com a Força Sindical e a CUT. Falamos das mudanças que ocorreram de uma economia fechada com indústria sucateada para uma economia aberta, em que as empresas precisam ser competitivas.
Pergunta – Como o sr. interpreta a afirmação da Kaiser de que estaria disposta a comprar a Skol?
Telles – Primeiro, eles precisam mostrar o balanço e o resultado deste ano. O balanço vai mostrar um patrimônio muito pequeno e um resultado ruim. Mas, como, no fundo, é a Coca-Cola... Além disso, se você considerar o que eles têm feito, tipo a revista ‘‘Imprensa’’, o resultado deve estar piorando. Fizemos a seguinte conta: a ‘‘Imprensa’’ fatura R$ 146 mil ao mês. Gastou entre R$ 200 mil e R$ 400 mil, dependendo do acordo com os veículos de comunicação, para divulgar a edição de novembro (com a reportagem de capa ‘‘Ambev. A fusão mal explicada’’). Deve ser uma estratégia de marketing nova.Ganho de eficiência com a megafusão permitiria a redução permanente do preço, diz a direção da AmBev
Arquivo FolhaQUEDA NA PONTAUnidas, Brahma e Antarctica reduziriam custos de produção e distribuição, argumenta a direção do grupo, e poderiam repassar os ganhos de eficiência ao consumidor final

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