Bovespa vai se unir a 9 bolsas no exterior
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sábado, 14 de outubro de 2000
Agência Estado De São Paulo 
O mercado de ações brasileiro está sob os efeitos da globalização. Prova disso é a crescente transação dos papéis brasileiros em Nova York, enquanto o volume de negócios na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) vem caindo. Atenta a esse movimento, a Bovespa já acertou sua entrada no projeto que visa a criação de um mercado global de ações. Além da brasileira, fazem parte da iniciativa outras nove bolsas: Tóquio, Hong Kong, Sydney, Paris, Bruxelas, Amsterdã, Nova York, Toronto e Cidade do México.
A idéia é montar um pregão mundial, que funcionará sem pausas, durante todos os dias da semana. Não se trata de uma fusão das bolsas, mas sim da formação de um mercado comum, onde o investidor brasileiro poderá comprar ações das maiores companhias americanas ou japonesas.
O superintendente-geral da Bovespa, Gilberto Mifano, acredita que se o projeto vingar estará encerrado o problema da migração de liquidez. O investidor não precisa mais mudar de praça, já que as maiores estarão dentro de um só bloco. O projeto piloto do pregão mundial deve estar à disposição dos investidores até o final do primeiro semestre de 2001. As discussões estão em curso e em dezembro deste ano deve ser divulgado o formato do mercado.
A modelagem de um mercado desse porte não é simples, pois os países possuem legislação e tributações diferentes. Segundo Mifano, existem alguns entraves que ainda precisam ser solucionados. O principal deles é a moeda a ser utilizada no novo mercado. A proposta é que cada investidor possa negociar em sua própria moeda.
Deve ser montada também uma clearing única, que será responsável pela liquidação financeira das transações. Outra dificuldade é a diferença das exigências legais dos diversos países, já que cada integrante tem um órgão regulador próprio. Um ponto está acertado: as empresas terão de divulgar seus balanços conforme os padrões internacionais de contabilidade quesito já cumprido pelas empresas brasileiras que possuem American Depositary Receipts (ADRs) em Nova York.
Impostos O sucesso do mercado global depende da derrubada desses obstáculos. É preciso montar um arcabouço jurídico para que os investidores domésticos possam participar, destacou o gestor de renda variável do Chase Manhattan, Eduardo Favrin. Ele observou que os fundos de pensão brasileiros perdem a imunidade de pagamento de Imposto de Renda se aplicarem em ativos de empresas estrangeiras. É por isso que os fundos não mantêm em suas carteiras as ações da Telefónica, que hoje são negociadas na Bovespa.
A falta de conhecimento do investidor doméstico sobre as empresas estrangeiras também pode ser um empecilho. Os analistas conhecem bem as empresas locais; as internacionais não são o seu foco, diz Favrin. Para alterar esse quadro, é preciso tempo. É uma mudança cultural, que irá exigir até uma abrangência maior de conhecimento dos profissionais de mercado. Apesar das dificuldades, Favrin avalia que o Brasil terá de se inserir nesse mercado. A abertura econômica é um processo irreversível e esse é mais um passo. A entrada das empresas no mercado global será optativa. A estimativa é contar, no início, com 200 a 300 companhias.
Segundo a Bovespa, o Brasil pode ter 20 empresas fazendo parte das negociações. O alvo são as de grande porte, com visibilidade internacional, como Petrobras, Aracruz e AmBev. Quando o mercado estiver maduro, a previsão é que conte com mil companhias de todos os países participantes.
Uma característica importante desse novo mercado é a cotação única dos papéis. As ações terão apenas um preço nos diversos países, ao contrário do que acontece atualmente. Hoje, é possível comprar ações da Aracruz, por exemplo, na Bovespa, em Nova York ou em Madri. Os papéis da empresa têm cotações diferentes, ainda que próximas, em cada um desses mercados. A tecnologia para fazer funcionar o mercado global será o último ponto a ser discutido. Hoje há muitas ferramentas disponíveis e isso não será problema, afirmou Mifano.


