Depois de esboçar reação na sexta-feira, as Bolsas de Valores voltaram a despencar ontem, último pregão de agosto. Arrastada pelo escorregão da Bolsa de Nova York nos momentos finais de um pregão marcado por forte volatilidade, a Bolsa de São Paulo fechou com baixa de 4,06%, que ampliou a perda acumulada no mês para 39,55%. Foi a terceira maior desvalorização mensal da Bolsa paulista desde 1968, portanto em 30 anos.
O recorde de baixa nesse período foi o de 56,17%, em março de 1990, quando o Plano Collor impôs o bloqueio dos cruzados, e a segunda maior queda foi a de 41,98%, quando o Plano Verão, pilotado pelo então ministro Maílson da Nóbrega, fazia água por todos os lados.
O mercado financeiro iniciou agosto preocupado com a crise da economia japonesa, cristalizada na persistente desvalorização da Bolsa de Tóquio e do iene diante do dólar. Temia-se que o mergulho do iene poderia levar o governo chinês a desvalorizar o yuan, a moeda local, desencadeando desvalorizações em cadeia que poderiam levar a um aprofundamento da crise nos países asiáticos.
As incertezas agravaram-se em meados do mês, quando, no dia 17, a Rússia declarou a moratória da dívida e promoveu a desvalorização do rublo. As duas medidas, combinadas com uma reestruturação da dívida cujas condições desagradaram a todos os investidores, levaram a uma fuga de capitais da Rússia e a um aumento de desconfiança em relação aos demais mercados emergentes, como o Brasil.
As bolsas de valores domésticas sucumbiram pressionadas por vendas de investidores que precisavam fazer caixa para honrar as perdas nos mercados internacionais, sobretudo no russo, e também pelo aumento de percepção de risco com possível propagação da crise russa. Outro fator de depressão foram as fortes quedas da Bolsa de Nova York, que bateu recordes de baixa no mês.
O dólar no câmbio negro tirou proveito das incertezas e ocupou o primeiro lugar na lista das aplicações mais rentáveis, com valorização de 2,87%. E, embora desta vez o governo não tenha puxado os juros para preservar o real contra os efeitos da crise externa, os investidores que apostaram no conservadorismo não se frustraram. Foram duplamente premiados.
Com a inflação negativa de 0,16%, calculada pelo IGP-M em agosto, o rendimento nominal foi também o real. A melhor rentabilidade no mês, de 1,23%, foi a dos fundos DI 60 dias.
Ninguém arrisca palpite sobre a tendência das bolsas em setembro. O cenário de incertezas permanece, principalmente em relação à Russia, onde se agrava também a tensão política, com o confronto entre o presidente Boris Yeltsin e o Congresso.

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