Bovespa mantém ritmo mas perde burburinho
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sábado, 26 de abril de 2003
André Siqueira<br> Agência Estado 
São Paulo - O passeio à Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) sempre impressiona os visitantes. Só que, há coisa de cinco anos, o que surpreendia era a multidão de engravatados gritando e gesticulando sem parar, às vezes com dois telefones colados aos ouvidos. O ritmo de trabalho continua frenético por lá, mas multidão deixou de ser a melhor palavra para definir a frequência na Bolsa. ''É bem legal, mas tem muito espaço vazio, né?'', constatava uma estudante ginasial em visita ao pregão, na semana passada.
Até o dia 17 de abril, segundo levantamento da consultoria Global Invest, a Bovespa era o segundo mercado mais rentável no mundo em 2003, com valorização de 28,3% em dólares. Só perdia para a Bolsa de Buenos Aires, que depois do fundo do poço chegou a crescer 45,7% este ano. Festejada em todo o mundo, a Bovespa exibe, no entanto, um salão vazio.
Mais de 80% do volume é movimentado pelo sistema eletrônico, o Mega Bolsa, importado da França em 1997. O pregão viva-voz, que mobilizou até 1.200 operadores na década passada, hoje só negocia os papéis de 10 entre as 391 empresas listadas na Bovespa. O resultado é que só 230 desses operadores continuam na Bolsa.
O motivo é simples: ao operador cabe executar, no pregão, as ordens dos clientes das corretoras, que são transmitidas a eles pelas mesas de operação, a quilômetros de distância, por meio de linhas telefônicas diretas, chamadas de ''spots''. Ainda que o custo dessa estrutura não seja alto e os salários não cheguem nem perto dos milhões movimentados diariamente - cada operador ganha de R$ 1,5 mil a R$ 5 mil -, ficou mais barato executar ordens eletronicamente. E os argumentos a favor dos operadores sempre acabam resvalando no romantismo.
''Não sou contra o sistema eletrônico, mas nós é que somos a vitrine do pregão'', defende o operador Roberto Carlos Rodrigues, da corretora Égide, que este ano completa 20 anos no ofício. Beto, como é conhecido no pregão, não esconde certa tristeza ao recordar a intensa movimentação humana que pôde observar numa visita recente à Bolsa de Nova York. ''Por que é que a maior Bolsa do mundo continua com tanto espaço para o viva-voz?''
''Em Wall Street, buscou-se uma convivência entre os dois modos de negociar. Aqui, o eletrônico veio para dividir'', responde o operador Décio Antônio Pecequilo, a quem os 32 anos de experiência no pregão renderam o apelido de Professor. Sua ''sobrevivência'' a oito planos econômicos, cinco mudanças de moeda e à entrada da negociação eletrônica, em 1997, é atribuída à relação que mantém com os clientes. ''Sempre tive sensibilidade para cativar meus clientes. Ligo, troco idéias e uso meu ouvido para sentir a empolgação do mercado.''
O segredo do bom operador, diz o Professor, é ter cinco ouvidos e oito olhos. ''Com o tempo, você fica rápido e consegue prestar atenção em vários detalhes ao mesmo tempo'', diz. Mas, como qualquer máquina superaproveitada, o corpo do operador dá sinais de fadiga. Que o diga o Professor, que no meio da algazarra do mercado perdeu 25% da audição do ouvido direito e 10% do esquerdo.
Outro que sentiu o peso dos anos na algazarra do pregão é o responsável pela Mesa de Operações da corretora Souza Barros, João Carlos Moraes Esquirra, que trabalhou por mais de dez anos como operador. ''Perdi 8% da audição no ouvido esquerdo, mas tenho isso como orgulho. Estava fazendo o que mais gostava'', diz, lembrando que, nos tempos áureos, o ruído no pregão chegava a 105 decibéis. ''É como uma pista de aeroporto.''
Segundo o vice-presidente do Conselho de Operadores da Bolsa (Corp), Gerson Medrano, os operadores têm encaminhado à instituição sugestões para fortalecer o sistema viva-voz. ''Queremos garantias de que nossos empregos continuarão a existir.''


