Em outubro, contratos futuros de soja, para entrega em abril de 97, poderiam ser negociados por US$ 15,50/saca. Hoje o mercado não oferece mais que US$ 13,50. E não acena com preços melhores até a próxima entressafra. Este exemplo, citado pelo analista de mercado da Cotriguaçu, Fernando Muraro, também expressa a opinião de outros técnicos no assunto: Vera Velho, da Agriplan, Porto Alegre, e Carlos Alberto Carraro, da Agrobusiness, de Maringá. Vendas futuras, com seguro de preços (‘‘hedge’’) se faz em bolsa. As bolsas têm um desafio em 97, conquistar agricultores e suas cooperativas. Oferecem transparência e chances permanentes de bons negócios. Mas se deparam com a falta de tradição, ou vocação, de quem detém a mercadoria. Quem trabalha com bolsa, defende o sistema; já os que resistem mostram falta de conhecimento sobre o mecanismo.
Para as bolsas, trabalhar com grupos de produtores não é apenas uma questão de expansão, mas de sobrevivência. O governo prepara sua saída da comercialização e os leilões de estoques (de milho, trigo, café, arroz, feijão e a própria soja eventualmente) tendem a se escassear reduzindo as atividades das bolsas. O espaço seria preenchido pela iniciativa privada, desde que o conceito de mercado em bolsa evoluísse na medida da ‘‘desestatização’’ da comercialização e do crédito. Os dirigentes das bolsas do Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul concordam.
Para Antonio Abrão, reeleito esta semana presidente da Bolsa de Cereais e Mercadorias de Londrina (BCML), as bolsas tendem a mudar o perfil de atuação, deixando de ser o braço do governo na comercialização de estoques remanescentes para operar diretamente com produtores através de papéis de vendas antecipadas como CPR, CMG e outros. Abrão não ignora pontos que ainda têm que ser clareados, citando a questão dos excedentes, quando o mercado externo estiver saturado. Mas, certamente, devem surgir alternativas.
‘‘As bolsas vão negociar com os produtores e atuar firmemente no mercado futuro. Já mostraram que têm competência’’, afirma Abrão, que destaca o nível técnico e ético dos operadores de suas corretoras, ponto forte das bolsas.
Na busca de clientes, uma das ações da bolsa será o encontro com lideranças dos produtores e cooperativas para expor e discutir o funcionamento do mercado. ‘‘É preciso desmistificar a bolsa’’, resume Abrão. Elas são depositárias dos principais pressupostos do mercado: lisura, transparência e honestidade. Quanto à eficácia do sistema, lembra que o sistema eletrônico oferece a mercadoria - bois, soja, milho ou café - a nível nacional.
O superintendente da BCML, Benedito Sobrinho, também frisa este ponto forte ‘‘em favor dos interesses dos produtores’’, ou seja a chance de expor seu produto. Um lote de soja ou milho ofertado em Londrina vai aparecer nas telas das 28 bolsas brasileiras e corretores estrangeiros. Portanto, ele é ofertado, simultaneamente, para todas as indústrias e compradores. As bolsas sinalizam se um produto vai ter preço bom ou não ao longo da safra. Com o auxílio de corretores, o produtor terá esse prognóstico antes mesmo do plantio. Com 10 anos de experiência em bolsa, Benedito cita também o fator liquidez e a chance de recomprar a própria mercadoria se for o caso.
Se as bolsas vão ter que conquistar o produtor para sobreviver, os produtores, por sua vez, vão ter que buscar, através das bolsas, suas oportunidades para financiar a produção usando os instrumentos de venda futura, lastreados pelo Banco do Brasil, caso das Cédulas de Produto Rural CPRs, principalmente, já que os outros não decolaram.
Sobrinho cita o trigo este ano como um bom exemplo. O governo não está adquirindo o produto como em outras épocas. Prefere leiloar o diferencial entre o preço de mercado e o preço mínimo. E todo o fluxo comercial é feito pela iniciativa privada.

mockup