Bolsas mergulham em dia de pânico
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sexta-feira, 15 de janeiro de 1999
Agência Estado 
Um dia depois de o real ter sido desvalorizado em cerca de 9%, o mercado não baixou a guarda. Ao contrário. Pipocam desconfianças de todos os lados. O pânico voltou a tomar conta dos pregões das bolsas de valores. Novamente, o circuit breaker foi acionado na Bovespa e na BVRJ, quando a queda dos índices atingiu 10%, o que levou à paralisação dos negócios por meia hora. Reiniciadas compra e venda, as tensões não foram aliviadas. O Ibovespa fechou em baixa de 9,96% e o IBV carioca recuou 9,02%.
As avaliações sobre o futuro do Brasil só pioraram ontem. Várias consultorias e bancos insistem que o real ainda está sobrevalorizado e prevêem novas rodadas de queda da moeda brasileira. A Standard & Poors rebaixou a classificação da dívida soberana do País, de alguns Estados e bancos. Sobram boatos de instituições financeiras em dificuldades, porque supostamente estariam bastante posicionadas em opções de venda de dólar.
Completando o péssimo cenário, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Cláudio Mauch, pediu demissão ontem. Apesar de o diretor ter dito que sua saída já estava programada, o mercado não engoliu esta nova deserção. Mais: o Banco Central teve trabalho ontem para segurar o dólar no teto da banda, sendo forçado a realizar dois leilões de venda da moeda. E a sangria não parou: até as 18h20, o fluxo cambial era negativo em US$ 700 milhões.
Na bolsa paulista, as blue chips foram ladeira abaixo. Até as 16 horas, ainda existia um ligeiro sentimento de alívio e alguns players, que haviam comprado pela manhã, hesitavam em pressionar o mercado para baixo. Mas bastou a notícia sobre Mauch ser divulgada e as bolsas perderam o pé. Não houve razão que segurasse as ordens de venda. Das ações que compõem o Ibovespa, somente quatro fecharam em alta. Inepar PN liderou o ranking das maiores quedas, com perda de 25%, seguida de Telerj PN (-23,6%) e Banespa PN (-21,59%).
Boatos de instituições financeiras em dificuldades tornaram o day after das mudanças na política cambial ainda pior do que o do tranco da desvalorização do real. O mercado de renda fixa bem que tentou engrenar uma tranquilidade pela manhã, na sequência da aprovação de medidas fiscais pelo Congresso anteontem à noite. Mas isso não durou muito tempo. Já na hora do almoço o clima se transformava, para se deteriorar completamente durante a tarde. Juros futuros dispararam, até apontar taxas superiores a 50% ao ano para janeiro, março e abril. O custo do dinheiro no mercado à vista foi pressionado e praticamente não houve negócios a termo.
O mercado comentou que muitos fundos perderam até 50% do seu valor com a desvalorização cambial, mas daí até a história se transformar em caso de perda patrimonial foi um passo. Foi observado um início de movimento de empoçamento de liquidez, ou seja, bancos evitando repassar recursos às tais instituições alvos dos comentários. O mercado não acreditou nos motivos alegados por Mauch para sua demissão e questionou sua saída num dia de boatos sobre bancos quebrados. Além do momento considerado inapropriado pela maioria dos analistas, foi comentado também, no meio da boataria, que a decisão poderia ter sido motivada por discordâncias sobre eventuais medidas restritivas às remessas para o exterior.
Mauch, que na sua entrevista coletiva para anunciar a demissão, dissera serem infundados os boatos de quebradeira, voltou a reiterar aos jornalistas que jamais deixaria o Banco Central se isso estivesse de fato acontecendo. A esta altura, os negócios já estavam fechados. Mas já na primeira vez em que Mauch procurara tranquilizar o mercado ninguém se sentiu melhor.
Falou-se também que os boatos poderiam estar sendo disseminados por bancos estrangeiros, a maioria com posição comprada em dólar. Eles compraram dólar lá fora, pagaram caro por isso e agora têm interesse em recuperar dinheiro, comentou um operador. Além disso, analistas de várias origens falaram na possibilidade de nova desvalorização do real na segunda-feira. E, claro, não poderiam deixar de figurar na lista do falatório as especulações sobre nova forte saída de dólares do País ontem.
Boatos à parte, os fatos não foram nada positivos. A Standard & Poors rebaixou o rating da dívida externa global brasileira e da dívida de alguns Estados (Ceará, Bahia e Rio de Janeiro, além do da cidade do Rio de Janeiro). Colocou em observação os ratings de bancos do Brasil, da Argentina, México e Chile - por causa da exposição no Brasil - e fez o mesmo com grandes bancos norte-americanos e europeus, incluindo o Citigroup, JP Morgan, Bankboston, Santander e Societe Generale.


