Além dos benefícios diretamente relacionados ao ensino, pesquisa e extensão, os projetos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado da UEL (Universidade Estadual de Londrina) resultam em renda para a cidade e região. As 1.502 bolsas concedidas hoje na instituição somam R$ 2,2 milhões por mês. É mais que a folha de pagamento da maioria das empresas da cidade. Quase metade, por exemplo, do total de salários pagos pela Sercomtel Telecomunicações (cerca de R$ 5 milhões).

Imagem ilustrativa da imagem Bolsas da UEL injetam R$ 2,2 mi por mês na economia
| Foto: Saulo Ohara/20-08-2018

Além disso, como ressalta o pró-reitor de Pós-Graduação, Amauri Alfieri, a universidade recebeu neste ano R$ 5,5 milhões do Proap (Programa de Apoio à Pós Graduação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do governo federal. “Boa parte dos insumos usados nos projetos de pesquisa são comprados na região”, afirma.

Um pedaço dessa riqueza, que já vem encolhendo nos últimos anos, deverá sofrer um corte maior em 2020. Ninguém sabe quanto. A UEL estima que vai fechar 2019 com 25% menos recursos para bolsas vindos do âmbito federal. São mais de R$ 500 mil que deixam de circular mensalmente na economia local.

As bolsas variam de R$ 400 - para alunos da graduação - até R$ 4.400 para os de pós-doutorado. Além da Capes e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), a UEL conta com 338 bolsas da Fundação Araucária, ligada ao governo do Estado. “Não sabemos o que vai acontecer se realmente o governo fizer os cortes que estão na proposta de orçamento para o ano que vem”, diz o pró-reitor.

Nesta semana, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou R$ 600 milhões a mais para a Capes. Mesmo que cumpra a promessa e inclua o valor na proposta que está no Congresso Nacional, o orçamento do órgão ainda ficará 28% menor que o deste ano. No caso do CNPq, o corte é bem pior, 91% (ver quadro).

Na UFPR (Universidade Federal do Paraná), o pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação, Francisco de Assis Mendonça, respirava aliviado nesta sexta-feira (13) devido à decisão do governo de reabrir cerca de 3.100 bolsas com a inclusão de mais R$ 600 milhões no orçamento da Capes. Segundo ele, basicamente, o governo federal está mantendo apenas os cortes previsto no “programa de correção de desvio” da Capes, “que existe há mais de 20 anos”, e prevê a retirada das bolsas para mestrados e doutorados classificados com notas 3 e 4 (as mais baixas) há mais de 10 anos. “Ainda não sabemos quantas bolsas vamos perder. Estamos calculando.”

Antes da promessa de Weintraub, a UFPR estava prevendo perder 164 bolsas, o que representariam R$ 1,2 milhão a menos em pagamento para os alunos de agosto a dezembro. “A situação não é tão feia em relação à Capes, o problema está nas bolsas de pesquisas do CNPq e Finep. É extremamente preocupante devido ao orçamento apresentado para o ano que vem. Esperamos que os parlamentares façam as alterações necessárias”, afirma. A Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) está com uma previsão de corte de 90% para 2020.

A UFPR dispõe de 1.921 bolsas somente da Capes, sendo 877 de mestrado, 964 de doutorado e 80 de pós-doutorado.

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Parcerias com a iniciativa privada

O governo federal vem cobrando das universidades que passem a se financiar sozinhas. As parcerias com a iniciativa privada já são realidade em vários projetos realizados na UEL. Mas o pró-reitor de Pós-Graduação, Amauri Alfieri, alega que o modelo nunca vai atingir uma porcentagem muito expressiva das pesquisas porque as empresas têm interesse em financiar projetos bem específicos.

“Acredito que é possível ampliar a participação da iniciativa privada, mas não é em toda área de conhecimento nem em toda região do País que isso é possível”, aponta.

O próprio pró-reitor, que é professor de ciência animal e mantém projeto em parceria com a Ourofino Agropecuária, na área de virologia bovina. “Tem de ser algo de interesse da empresa. Achar que a iniciativa privada vai investir muito mais em pesquisa é uma ideia romântica.”

Segundo ele, nem mesmo nos Estados Unidos, modelo defendido pelo governo, as empresas são tão presentes na pesquisa. Estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que 73% do financiamento dos projetos nas universidades privadas norte-americanas vinham do governo em 2010. Curiosamente, nas instituições públicas, o financiamento governamental eram menor, de 61,1%.

Outro estudo, dessa vez da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo), com dados de 2000 a 2016, revela que o MIT, o tradicional instituto de tecnologia de Massachusetts, tem apenas 22% das pesquisas financiada por empresas. O mesmo estudo diz que, na Unicamp (Universidade de Campinas), a participação da iniciativa privada nas pesquisas é um pouco superior.

Suzana Nixdorf lamenta a falta de infraestrutura do laboratório que limita a capacidade de trabalho e de novos parceiros
Suzana Nixdorf lamenta a falta de infraestrutura do laboratório que limita a capacidade de trabalho e de novos parceiros | Foto: Ricardo Chicarelli

Doutora em química e coordenadora do Laboratório de Desenvolvimento de Instrumentação e Automação Analítica da UEL, Suzana Nixdorf, trabalha numa área bastante atrativa para a iniciativa privada. O laboratório tem quatro clientes e poderia ter mais, segundo ela. O problema é a falta de infraestrutura. Criado há 13 anos, a unidade nunca teve um funcionário sequer. “Aqui são os próprios alunos que limpam o chão”, conta.

Todo o custeio do laboratório tem sido bancado com recursos da prestação de serviços. O dinheiro entra para a universidade, o Estado retém 30%, e a pesquisadora fica com crédito para usar o restante. “Todos os equipamentos compramos com recursos que geramos. Até com o piso e o ar-condicionado foi assim.”

A docente diz não ter segurança de propor mais projetos às empresas devido à falta da infraestrutura necessária e agora também por causa das ameaças de cortes em bolsas.

Já o coordenador do mestrado em ciências farmacêuticas, professor Nilton Syogo Arakawam critica o governo que “vem se desresponsabilizando pela pesquisa”. E diz e que o jeito será buscar mais a iniciativa privada. O laboratório no qual atua perdeu ao menos uma das quatro bolsas que tinha. “Tem docente que conta com três bolsas financiadas por uma indústria farmacêutica. Mas a preocupação da empresa é apenas a de capacitar seus funcionários. Não tem como fazer pesquisa sem o apoio governamental.”

Do laboratório de Fisiologia Neuroendócrina e Metabolismo da UEL, o professor Ernani Uchoa explica que somente as pesquisas ligadas ao meio ambiente na unidade teriam apoio das empresas. Outras, como as relacionadas à obesidade e hipertensão dificilmente encontrariam parceiros. (N.B.)

R$ 400 vão fazer muita falta para Kemily

Ela tem apenas 21 anos, mas sabe muito bem o que quer. Estudante do segundo ano de química, Kemily Andrade da Silva fala com a segurança de um cientista experiente. A jovem iniciou há pouco o trabalho num projeto da UEL que busca desenvolver método para checar a pureza do café. Seu entusiasmo, no entanto, está competindo com o medo de ficar sem os R$ 400 da bolsa de iniciação científica.

 “O valor mal dá para pagar o ônibus e a comida, mas será muito pior se ficar sem”, diz Kemily Andrade da Silva sobre o medo de perder o dinheiro da bolsa de iniciação científica
“O valor mal dá para pagar o ônibus e a comida, mas será muito pior se ficar sem”, diz Kemily Andrade da Silva sobre o medo de perder o dinheiro da bolsa de iniciação científica | Foto: Ricardo Chicarelli

“Recebi um e-mail do CNPq dizendo que não garantem o pagamento no próximo mês”, conta. Kemily mora com a mãe, costureira, que está recebendo auxílio-doença no valor de um salário minimo. “O dinheiro (da bolsa) é apenas para me manter aqui na UEL. O curso é integral. Não tem como trabalhar fora”, afirma.

Qualquer estudante que recebe bolsa, desde a graduação ao pós-doutorado, precisa garantir dedicação exclusiva ao projeto. “O valor mal dá para pagar o ônibus e a comida, mas será muito pior se ficar sem”, diz a estudante de química.

Aluna da professora Suzana Nixdorf, Kemily trabalha no projeto encomendado pelo Ministério da Agricultura, Abastecimento e Agropecuária. Além dela, um doutorando e outros dois alunos de graduação participam do trabalho. Mas também ajudam nos demais. São oito projetos ao todo. “Praticamente moramos aqui dentro.”

Milene Rodrigues, aluna de ciências sociais, pesquisa “gênero e políticas públicas”. E está muito aflita com a possibilidade de perder sua bolsa de iniciação científica. “Dizem que vão pagar, mas hoje já é dia 12 e eu não recebi. O pagamento sai normalmente no dia 5”, conta,.

Vivendo na Moradia Estudantil, ela diz que não pode contar com o apoio financeiro da família. E os R$ 400 são o dinheiro para comer. “Só no RU (Restaurante Universitário) são R$ 4,50 para almoço e R$ 4,50 para janta.”

Outra aflita é a mestranda em sociologia, Ana Flávia Conrado. Ela ficou um ano afastada da universidade depois da graduação. Egressa de escola pública de periferia, conta que não tem como ficar sem renda porque tem de ajudar a família. “Me preparei para o mestrado, apresentei o projeto, fui selecionada e saí do emprego. Espero poder contar com a bolsa pelo menos até o meio do ano que vem”, declara.

Já no doutorado, Maíra Higuchi afirma que terá de deixar o curso se perder a bolsa. “Não tenho como ficar três anos sem receber. E não dá para fazer doutorado e trabalhar ao mesmo tempo”, conta ela, que pesquisa uma forma de tornar a uva menos perecível. (N.B.)

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