Embaladas pela expectativa da votação da urgência do projeto sobre a contribuição previdenciária de servidores federais, as bolsas de valores seguiram em escalada ontem. Desde a sexta passada, a Bovespa acumula impressionante ganho nominal de 51,75%. Ontem, a bolsa paulista subiu 3,97%, com volume financeiro de R$ 655 milhões. No Rio, foi feriado. O Ibovespa futuro, negociado na BM&F, valorizou 3,38%.
Se até ontem os investidores estrangeiros é que patrocinaram a festa, ontem foi a vez de as tesourarias das instituições financeiras irem à luta. Quem estava de fora, relutante diante da mudança no regime cambial, calculou o risco e achou que valeria à pena apostar no ritmo de votações do Congresso. Ou seja, avalia-se que a situação de emergência é tamanha que os parlamentares não negariam fogo.
Até o encerramento dos pregões, as votações estavam bem encaminhadas. Um acordo com a oposição permitiu que houvesse a retirada da pauta da urgência para a votação do projeto. Também os sinais do exterior foram positivos. Aparentemente, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, conseguiu convencer FMI, BID, Bird, investidores externos e governo dos EUA de que o Brasil tem rumo. Independentemente de todos estes sinais, há uma única certeza entre profissionais do mercado acionário: o País conseguiu sobreviver a mais um dia de câmbio livre.
A cautela continua sendo a palavra de ordem no mercado de renda fixa. E o fluxo cambial mantém-se como foco principal das atenções. Com a saída de quase US$ 300 milhões anteontem, as projeções de juros observadas nos contratos de DI futuro voltaram a subir ontem, num movimento preventivo. Ontem o fluxo de dólares permaneceu no vermelho, acumulando saldo negativo de US$ 323 milhões até as 19h20, dos quais US$ 198 milhões saíram pelo câmbio comercial e US$ 125 milhões pelo flutuante. O mercado sabe que o dólar comercial só não está mais pressionado porque os bancos têm ainda posições estocadas da moeda norte-americana. Se elas forem zeradas e se a saída de capitais continuar, é certo que a cotação do dólar comercial sofrerá pressão de alta.
Dólar saindo, juro subindo. O juro do overnight subiu ontem de 32% para 32,5% ao ano, com atuação direta do Banco Central. A autoridade monetária demorou ontem cerca de meia-hora após a abertura dos negócios para atuar e acabou por tomar recursos a 32,5%, em leilão go around (informal). A liquidez estava folgada - mais recursos no sistema bancário do que volume de títulos públicos negociados - principalmente por conta de resgate de títulos que venciam e secundariamente pelo pagamento ao funcionalismo. A partir da atuação do BC, os negócios feitos entre as instituições financeiras buscaram a taxa do resultado do leilão. Exatamente como anteontem.
A atuação do BC a uma taxa 0,5 ponto percentual superior à de anteontem deu margem a especulações de que os juros possam iniciar uma ‘‘escadinha’’ de alta diária do mesmo tamanho do degrau de ontem. Por isso mesmo, o dinheiro a termo para hoje, quinta-feira, apontava taxa de 33% ao ano.
De qualquer forma, o mercado sabe que precisa de pelo menos mais um dia para dar base mais sólida a essa aposta. Isso se o País não tiver mais surpresas bombásticas pela frente. Por sinal, a redução da volatilidade dos mercados permitiu à BM&F diminuir os valores das margens de garantia para o contrato futuro de DI de um dia.
No câmbio, o dia ontem foi de calmaria, mas ainda muito inquietante. A cotação encerrou o dia em R$ 1,59 e se manteve abaixo desse nível durante todo o dia. O giro de negócios foi baixo: US$ 2,300 bilhões até as 17h40, contra uma média superior a US$ 5 bilhões antes da mudança da política. Mas essa aparente tranquilidade no mercado à vista ainda não indica que se chegou a algum equilíbrio para a relação dólar x real. O fluxo cambial continua negativo e, segundo os profissionais, a moeda só não está pressionada porque os bancos têm hoje um volume alto de dólares em caixa.
A pergunta que vale ouro hoje para qualquer um desses players é qual é o tamanho dessas reservas dos bancos, ou seja, por quanto tempo o mercado ainda aguenta sem precisar recorrer ao interbancário. Se as reservas acabarem antes do fluxo cambial apresentar sinais de reversão, isso significa que a moeda voltará a ficar pressionada. Mas, por outro lado, se os exportadores voltarem a procurar ACCs ou se o humor por aqui melhorar, a ponto de atrair capital externo, então os estocados em dólar correm o risco de perder dinheiro.

mockup