Bolsa perde liderança em abril para ouro e black
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quinta-feira, 30 de abril de 1998
Agência Estado 
Depois de ser a opção mais rentável em fevereiro e março, o investimento em ações fechou abril na lanterninha do ranking das aplicações financeiras. As Bolsas de Valores de São Paulo (Bovespa) e do Rio de Janeiro apuraram queda de 2,25% e 2,31%, pela ordem. No topo do ranking apareceu o ouro, com alta de 1,85%. Já as aplicações de renda fixa (caderneta de poupança, fundos de 30 e de 60 dias e CDBs) apresentaram rendimento confortavelmente acima da inflação, que, medida pelo IGP-M da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ficou em 0,13%.
Os analistas esperavam que as Bolsas passassem por uma fase de acomodação em abril, por conta do excelente desempenho apurado nos dois meses anteriores - a Bovespa tinha avançado 8,74% em fevereiro e 13,01% em março. E, além do fato de ser normal uma pausa, ou pelo menos uma interrupção na trajetória de alta das Bolsas, abril foi um mês bastante conturbado para o mercado financeiro. Vale lembrar ainda que houve o vencimento de opções, evento que sempre aumenta a oscilação das Bolsas.
No plano político, a morte do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, e do deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), líder do governo na Câmara, deixou o mercado apreensivo, pois o governo perdeu, em 48 horas, os dois principais articuladores de suas relações com o Congresso. O presidente Fernando Henrique Cardoso agiu rápido e decidiu assumir pessoalmente a coordenação política do governo, mas permanece a incógnita se o andamento das reformas constitucionais não será prejudicado. Um exemplo foi a votação da reforma da Previdência Social na quarta-feira, que acabou sendo adiada para a semana que vem.
E neste mês ressurgiu outro fator que sempre perturba os mercados acionários: o temor de que o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) eleve os juros básicos da economia para conter eventuais pressões inflacionárias. Isso provocou a queda das Bolsas de todo o mundo na segunda-feira - nesse dia, o mercado paulista fechou em queda de 5,72%. Mas, no decorrer da semana, os especialistas começaram a reavaliar a perspectiva de alta dessas taxas, que não deve ocorrer de imediato. E, ainda que os juros sejam efetivamente aumentados, a elevação não deve ser significativa.
Internamente, a nomeação de Luiz Carlos Mendonça de Barros para o Ministério das Comunicações e de André Lara Resende para a presidência do BNDES foi bem-recebida pelo mercado, porque é um sinal de que o governo fará o possível para manter a privatização do sistema Telebrás dentro do cronograma já estabelecido. E é justamente a expectativa em relação à venda das estatais do setor de telecomunicações que pode dar fôlego às Bolsas nos próximos meses.
A presença do ouro na liderança do ranking, com alta de 1,85% no mês, não deve ser encarada como indicação de tendência. Como o mercado doméstico movimenta pequeno volume de recursos, o preço do metal fica sujeito às oscilações das cotações no mercado internacional. Assim, comprar ouro como investimento não é recomendável.
O mesmo se aplica ao dólar paralelo, que ficou na vice-liderança do ranking, com alta de 1,71% em abril. O País possui mais de US$ 70 bilhões de reservas e tudo indica que a política cambial vai ser mantida, o que torna a compra do black má opção.
Já as aplicações de renda fixa seguiram pagando juro real aos investidores, ainda que o Comitê de Política Monetária (Copom) tenha efetuado mais um corte significativo na TBC (o piso das taxas), que caiu de 28% ao ano para 23,25%. Os CDBs para quantias superiores a R$ 100 mil renderam 1,35%, seguidos de perto pelos fundos de 60 dias, que tiveram rentabilidade de 1,32%. A caderneta, apesar de ter apresentado o pior rendimento da renda fixa (0,97%), também ofereceu ganho real ao aplicador.
Na próxima reunião do Copom, marcada para o dia 20 deste mês, os juros devem ser reduzidos novamente, mas a queda deve ser bem mais suave do que nas duas últimas vezes. Segundo analistas, as taxas não podem cair muito abaixo dos atuais níveis, sob pena de o cupom cambial (rendimento em dólar) ficar pouco atraente para o capital estrangeiro.


