São Paulo - Alguns meses antes do atentado de 11 de setembro, o empresário Constantino Júnior, fundador da Gol, recebeu cinco telefonemas de um sujeito da AIG. Na quinta, ele atendeu. Do outro lado da linha, ao contrário do que imaginava, não estava um corretor de seguros, mas sim um executivo do mercado financeiro querendo comprar uma participação na sua recém-criada companhia aérea. As conversas se estenderam até fevereiro de 2003, quando a americana AIG Capital aplicou US$ 26 milhões na empresa. No ano passado, ela vendeu seu último lote de ações na Gol e, ao final, ganhou dez vezes o que investiu.
A história da Gol é emblemática porque abriu caminho para um novo ciclo do capitalismo brasileiro. Em 2004, quando a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) estava abandonada, Gol, ALL e Natura foram as primeiras empresas de porte a abrir capital e indicar um modo diferente de financiar os negócios no Brasil. No final de 2003, o valor total das empresas listadas na Bovespa era de apenas US$ 234 bilhões. Na sexta-feira passada, esse número ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 1 trilhão. ''Esse é um movimento inédito no Brasil. Até então, a regra era grandes grupos industriais dependentes dos empréstimos do BNDES'', diz Claudio Haddad, presidente do Ibmec.
E não é só na Bolsa que o mundo de negócios brasileiro está se renovando. O número de fusões e aquisições bate recordes sucessivos. Nos quatro primeiros meses do ano, o volume de transações atingiu US$ 22,7 bilhões, praticamente igual a todo o ano de 2004. A previsão é que os negócios movimentem US$ 100 bilhões em 2007. No mundo, o volume de fusões em aquisições já ultrapassou US$ 2 trilhões esse ano.
Esse fenômeno é fruto da abundância internacional de recursos para investimentos, da estabilidade da economia brasileira e da iniciativa de alguns executivos e empresários que souberam enxergar antes e apostar nessa mudança. O homem dos telefonemas da AIG é parte desse time. O nome dele é Fernando Borges, que há sete anos dirige o fundo de private equity da AIG no Brasil. ''A gente entrou na Gol quando o mercado estava parado. A venda de ações da Gol, da Natura e da ALL ajudou a criar esse mercado. Quem investiu nelas ganhou dinheiro'', diz Borges.
Esses executivos pertencem a uma geração que tem hoje entre 40 e 50 anos, foi formada na cultura agressiva dos bancos de investimentos internacionais, com uma capacidade de análise da economia que vai além dos números. Boa parte deles saiu do antigo Banco Garantia, do hoje empresário Jorge Paulo Lemann, ou foi influenciada por ele. O sucesso estrondoso e a crise do Garantia, em 1998, são divisores de água para os homens que estão fazendo a roda dos negócios girar mais rápido no Brasil.

Agressividade - A principal empresa de investimentos em participações (private equity) do País, a GP foi criada por antigos sócios do Garantia. Ela abriu seu primeiro fundo em 1994 com US$ 500 milhões, quando não se conhecia esse tipo de negócio no Brasil. Desde então, já investiu mais US$ 1,1 bilhão em empresas como Telemar, ALL Logística, Submarino e a construtora Gafisa.
O estilo ousado é uma das marcas de dois dos bancos mais atuantes na abertura de capital: UBS Pactual e Credit Suisse. Eles foram responsáveis por cerca de 80% da emissão de ações dos últimos três anos. Ambos têm no DNA os genes do Garantia: o Pactual se inspirou em seu modelo de gestão, em que a remuneração varia de acordo com o desempenho de cada executivo. O Credit Suisse comprou o Garantia depois que o banco perdeu muito dinheiro com a crise da Rússia, em 1998.

Muito trabalho - O clima de euforia de sexta-feira passada, quando a Bolsa bateu o 20º recorde de pontos do ano, em nada lembra uma madrugada gelada de 2001. Na época, o presidente da Bovespa, Raymundo Magliano, estava nas ruas tentando popularizar negócios com ações e salvar a Bolsa. Naquela época, a bolsa movimentava menos de US$ 200 milhões por dia - hoje são US$ 1,8 bilhão -, as empresas levavam as ações a Nova Iorque sob forma de ADRs, e não havia interessados em emitir papéis no Brasil.
A conversa mais comum era que a Bolsa de São Paulo seria engolida pela de Nova Iorque. A história da virada na Bovespa conta com muito esforço, alguma sorte e uma dose de ironia.
A melhoria do cenário internacional e a estabilização da economia brasileira ajudaram, mas a Bovespa fez sua parte. Contratou uma equipe chefiada pelo economista José Roberto Mendonça de Barros para reestruturar os negócios. Foram visitadas seis bolsas européias até se encontrar um modelo, o Neuer Market, a bolsa alemã de empresas de tecnologia.
Em outro front, Magliano brigou para acabar com a cobrança da CPMF, que tornava os negócios com ações mais caros do que nos EUA. Durante 10 meses, Magliano visitou deputados e senadores em Brasília até convencê-los a derrubar a CPMF na venda de ações. A CPMF caiu em junho de 2002 e, lentamente, as empresas começaram a aderir ao Novo Mercado, hoje o principal motor da Bolsa.
Por ironia, o Neuer Market alemão acabou com o estouro da bolha da Internet. Os negócios voltaram à Bolsa, mas os operadores não estão mais lá. O pregão, agora, é eletrônico.

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