Bolsa despenca. Juro deve cair menos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de dezembro de 1998
Agência Estado 
A derrota do governo na noite de terça-feira no Congresso, durante a votação da MP 1.720, deu um empurrão ladeira abaixo nas bolsas, que já haviam iniciado dezembro com disposição para quedas. O mercado foi pego de surpresa com a desorganização da base governista, que subestimou a quantidade de infiéis no plenário.
Acostumados a sucessivas vitórias nas votações do ajuste fiscal, os investidores foram pegos literalmente de calças curtas e detonaram pesadas ordens de venda. Por muito pouco não foi acionado, pela oitava vez desde que foi criado, o circuit-breaker na Bovespa. O índice da carteira teórica paulista atingiu a mínima de -9,74% na última meia hora dos negócios. O Ibovespa fechou com perda de 8,79% e volume mais forte de R$ 729 milhões, o que significou real vontade de desova e não apenas baixa no grito. A Bolsa do Rio também caiu: 8,93%. No rol das más notícias do dia, houve o fracasso do leilão da Ceal (Companhia Energética de Alagoas) na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. O único consórcio habilitado, o Cosepar, recuou no último minuto e não apresentou lances. O ministro das Minas e Energia, Raimundo Brito, considerou a não-realização da venda um fato isolado.
Neste ambiente de franco pessimismo, passou ao largo uma boa notícia. Os Bancos Centrais dos onze países que participam do sistema de moeda única européia, que entrará em vigor a partir de 1º de janeiro do próximo ano, cortaram o juros para o nível de 3%, com exceção da Itália, que reduziu a taxa para 3,5%. Cortaram suas principais taxas de juro Alemanha, França, Itália, Portugal, Espanha, Finlândia, Áustria, Irlanda, Holanda, Bélgica.
Animadas com a boa-nova, as bolsas européias fecharam em alta, mas este sopro de alegria não contagiou Nova York, onde o índice Dow Jones acusou baixa ao redor de 100 pontos durante boa parte do pregão e fechou em baixa de 2,04%.
No mercado de câmbio, voltaram a circular pelas mesas de operação rumores sobre desvalorização mais acentuada do real. Não daria para ser de outro jeito.
O dólar à vista fechou cotado a US$ 1,2021, com alta de 0,07%. No mercado futuro, as projeções subiram e fecharam em US$ 1,2143 para janeiro, alta de 0,14%, e US$ 1,2308 para fevereiro, subindo 0,31%.
Até as 17h40, o fluxo cambial líquido era positivo em US$ 116 milhões. No mercado comercial, o saldo era positivo em US$ 98 milhões e no flutuante, superavitário em US$ 18 milhões. Mas até esse horário, analistas não arriscavam em prever se o fluxo de hoje ficará positivo. As exportações contratadas somaram US$ 164 milhões e as importações US$ 120 milhões neste mesmo horário. As compras financeiras eram de US$ 208 milhões e as vendas, de US$ 353 milhões.
Mas foi mesmo a derrota do governo o grande vilão do dia. Inconformado com a primeira derrota nas votações do ajuste, o presidente Fernando Henrique se defende como pode. No fim da tarde, o porta-voz da presidência disse que o governo vai segurar os juros. Segundo um operador, essas ameaças só servem para aumentar o receio do investidor.
Temendo que o Congresso venha ser um empecilho até mesmo na aprovação formal do acordo com o FMI, o mercado já começou a traçar cenários pessimistas para a condução da política monetária. Um operador que diz que apostava até ontem em queda da Tban para 35% na próxima reunião do Copom afirma que, agora, a manutenção da taxa passa a ser uma possibilidade bastante concreta. Também há quem espere que, até o dia 16, o BC deixe de ajustar o over para, então, definir o que fará. Seja como for, a intervenção do Banco Central hoje pela manhã é aguardada com muita ansiedade.
Os indícios, por enquanto, são de que, mesmo que ocorra queda dos juros, certamente ela será muito mais lenta. O porta-voz da Presidência da República, embaixador Sérgio Amaral, voltou a afirmar que o governo não vai permitir que se acelere a trajetória de queda dos juros, como se pretendia fazer.


