Bolsa despenca. Cresce fuga de dólar
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de janeiro de 1999
Agência Estado 
O mercado tem por vocação cultivar uma série de máximas que definem sua relação com a política e a macroeconomia. Uma delas foi amplamente lembrada nesta terça-feira nervosa: o mercado tende a antecipar os fatos. Os números ontem foram fortemente negativos para as bolsas de valores, para os negócios na renda fixa e para o câmbio. O que o mercado estaria antecipando?
Nas mesas que operam contratos de câmbio futuro da BM&F, os números revelam que a chamada banda cambial larga estaria na iminência de ser ampliada. O câmbio futuro com vencimento em fevereiro, por exemplo, fechou ontem com alta de 0,41%, cotado a R$ 1,2270, acima da ponta de venda da banda larga, que é de R$ 1,2200. O vencimento março fechou em alta de 0,37%, cotado a R$ 1,2430.
Nas mesas do interbancário (dólar negociado entre os bancos), operadores observaram um consistente movimento de inversão de posições vendidas. Isto é, houve migração de posições vendidas em dólar para posições compradas. O Banco do Brasil, para conter a alta das cotações, despejou dólares nas mesas, que foram prontamente adquiridos pelas instituições. Tudo que o BB vendeu hoje o mercado embolsou, comentou um operador.
Nas mesas de negócios com dólar comercial, operadores registravam um dia de saídas líquidas de US$ 895 milhões até as 18h45 (incluindo segmentos de dólar comercial e flutuante). A expectativa é de que as saídas possam ultrapassar US$ 1 bilhão. Nesse horário, o segmento de comercial mostrava déficit de US$ 653 milhões. As exportações somavam US$ 94 milhões, diante de importações de US$ 171 milhões. As compras financeiras estavam em US$ 144 milhões, contra vendas financeiras de US$ 720 milhões. No segmento de dólar flutuante, as estimativas apontavam para um saldo negativo de US$ 242 milhões.
Não dá para afirmar com segurança o que o mercado está antecipando. Mas é evidente que hoje houve um forte movimento que revela diminuição de confiança no real. Pelo menos na maneira como ele está sendo conduzido agora, disse um experiente analista. Seria, então, um momento de mudar a forma de conduzir o real? Os boatos de que Pedro Malan e Gustavo Franco estariam deixando o governo inundaram o mercado ontem, apontando para esse sentido. Mas o presidente FHC negou os boatos no Rio, afirmando que Malan é essencial ao País.
Além disso, comentou um analista, uma mudança radical nesse momento em que o real está no olho do furacão poderia ter consequências mais drásticas ainda para a economia. Mas, ao mesmo tempo, o mesmo analista pergunta: Mas por quanto tempo mais nós vamos suportar essa pressão?
Não houve uma aposta sequer a favor do Brasil ontem nas Bolsas. Se antes o mercado se agarrava à expectativa do pacote do FMI e do ajuste fiscal, agora não se vê saídas. Operadores consultados pela Agência Estado apostam firmemente que não restará alternativa ao governo, a não ser mudar sua política cambial.
A tarde, nem os boatos de demissão de Gustavo Franco e Pedro Malan serviam de pretexto para as vendas. O problema é macro. Não há motivos para quedas, não há culpados pontuais. Existe sim um grande movimento de antecipação de que dias piores virão. Nesta terça-feira nervosa, o circuit breaker quase chegou a ser acionado. No seu pior momento, a Bolsa paulista caiu 9,56% e fechou em baixa de 7,61%. O tombo do Ibovespa futuro superou os 10% no meio da tarde e o índice fechou com desvalorização de 8,21%.
A forte saída de dólares ontem foi um ingrediente a mais de preocupação. Até as 19 horas, o saldo do fluxo cambial era negativo em cerca de US$ 900 milhões, somados os segmentos comercial e flutuante. Os investidores continuam mandando dinheiro para fora. Também houve forte movimento de venda de ADRs de empresas brasileiras e títulos da dívida externa - o C-bond levou novo tombo, com perda de 3%, cotado a 55,187 centavos de dólar.
O péssimo humor do mercado de renda fixa ontem pôde ser medido por qualquer segmento de negócios: DI futuro, dinheiro a termo, leilão de títulos. A intranquilidade foi geral. Boataria de todos os lados e a impressão, por parte de muita gente, de que alguém sabe mais do que os outros.
O leilão de títulos públicos de emissão do Tesouro foi, talvez, o sintoma mais eloquente deste esboço de pânico no mercado de renda fixa. As instituições financeiras pediram prêmios altíssimos para ficar com os títulos. O governo teve que vender Notas do Tesouro Nacional-Série S (NTN-S), pagando uma taxa de 34,8% ao ano. Acima, portanto, da Taxa Básica do Banco Central (TBC) que está em 29% ao ano. Com a decisão, o governo respaldou a expectativa do mercado de um forte movimento de elevação dos juros.


