Bolsa cai após denúncias que derrubaram Jucá
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Nelson Bortolin<br>Reportagem Local 
A divulgação das gravações que derrubaram ontem o ministro do Planejamento, Romero Jucá (leia mais no primeiro caderno), afetou o mercado de capitais . O Ibovespa fechou em queda de 0,79%, aos 49.330,42 pontos. E o dólar subiu 1,41%, cotado a R$ 3,5732 ao final do pregão. O cenário externo também não ajudou, com alta da moeda dos Estados Unidos diante de várias divisas de países emergentes e exportadores de commodities, em função do recuo dos preços do petróleo.
Economista da Guide Investimentos, Ignácio Crespo afirma que o mercado não esperava uma crise política tão impactante já no início da atual gestão de Michel Temer. "O governo anterior estava mais preocupado em se defender do que em melhorar a economia. O atual vinha tentando (fazer o contrário). Mas, agora não sabemos mais", declara. A incerteza, ressalta Crespo, é muito grande e influencia negativamente o comportamento dos investidores.
De acordo com o economista, mesmo que seja anunciado hoje um pacote robusto de corte de gastos (leia mais nesta página), ele não será suficiente para reduzir o impacto do escândalo no mercado. "A expectativa de que o governo tome medidas mais austeras já foi precificada", diz ele, referindo-se ao fato de que a Bolsa já subiu na semana passada com o afastamento de Dilma Rousseff. "Não temos expectativas de que (o anúncio) venha a surpreender o mercado de novo", afirma.
Crespo ressalta que o Ibovespa caiu ontem também em função do cenário externo. "Não foi um dia favorável. As Bolsas europeias operaram em baixa. As commodities recuaram. Dominou a aversão ao risco", declara.
Erro crucial
Embora considere a situação "mais tranquila" após o afastamento da presidente Dilma Rousseff, o economista e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marcelo Curado, considera que o governo Temer errou ao nomear investigados na operação Lava Jato. "Foi equivocado nomear quem está sendo investigado. Temos de ver como o presidente vai reagir diante dessas situações", afirma. A licença de Jucá, para o economista, ajuda, mas não resolve o problema. "Enquanto a política não se estabilizar, não há condições de a economia ter uma trajetória mais positiva", alega.
Apesar disso, para ele, as medidas que serão anunciadas nesta manhã pela equipe econômica podem melhorar o ânimo dos empresários. "Devem ser medidas com foco no corte de gastos. A equipe econômica é muito boa e há uma vontade de que as coisas deem certo", declara.
Já o presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Valter Orsi, se diz surpreso com o escândalo, mas achou positivo o afastamento do ministro Jucá. "Mostra que o governo está firme no seu propósito." Apesar da "frustração", ele afirma que o novo governo já trouxe novos ânimos para a economia. "A gente vê uma equipe econômica determinada. Já sentimos um otimismo. As pessoas voltaram a falar de negócios e lentamente voltarão a investir", acredita.
O caso Jucá incomoda, mas não neutraliza o pacote fiscal que será anunciado hoje. A opinião do é economista e assessor da Acil, Marcos Rambalducci. "Constrange bastante. A necessidade de afastar o ministro torna o novo governo parecido com o anterior. E certamente tira um pouco da credibilidade das medidas econômicas. Não tem jeito", declara. Mas, de acordo com Rambalducci, o investidor está mais preocupado com o pacote fiscal do que com possíveis casos de corrução. "Está mais interessado no que Meireles (ministro da Fazenda, Henrique Meireles) tem a trazer de bom", declara.


