Paraná e RS concentram 90% da produção nacional: falta espaço para guardar o trigo
O bom rendimento da safra brasileira de trigo, associado à comercialização mais lenta do produto, está comprometendo o sistema de armazenagem da região Sul do País. O alerta é do pesquisador Irineu Lorini, da Embrapa Trigo em Passo Fundo (RS). Em recente viagem pelas cooperativas do Paraná e Rio Grande do Sul, que concentram 90% da produção brasileira, ele observou que há falta de espaço para guardar o trigo. A dificuldade deve se agravar com a entrada da safra de verão, a partir de janeiro.
''Algumas cooerativas do Paraná estão fazendo barricadas nas laterais dos silos para colocar grãos até o teto. O procedimento compromete a infra-estrutura do armazém e ainda resulta no maior ataque de pragas e insetos, já que não permite a aeração dos grãos'', explicou.
O País produziu, em 2003, 5,5 milhões de toneladas de trigo - quase o dobro da safra de 2,9 milhões de toneladas obtidas em 2002. O Paraná, maior produtor brasileiro, é responsável por 2,8 milhões de toneladas.
O engenheiro agrônomo Robson Mafioletti, assessor técnico econômico do Sindicato e Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) confirmou que a existência do problema de falta de armazéns. Ele afirmou que, diante do crescimento da produção, os moinhos de trigo passaram a comprar apenas o necessário, sem fazer estoques, com o objetivo de pressionar os preços para baixo. As cooperativas, por sua vez, deixaram de vender a espera de cotações mais vantajosas. O resultado é que o mercado ficou parado por quase dois meses.
Para tentar solucionar o impasse, as cooperativas se organizaram para exportar trigo pela primeira vez na história do País. Em novembro foram vendidas 25 mil toneladas de trigo paranaense ao Chile. Esta semana, outro navio com 50 mil toneladas será enviado para a Europa. No Rio Grande do Sul, a experiência se repetiu com a venda de 90 mil toneladas. ''É uma das alternativas para reduzir o estoque''. comentou.
Além disso, em janeiro vencem os contratos de opção que devem aliviar o estoque em 600 mil toneladas. Hoje, o governo vai ofertar, para o Paraná, novos contratos de opção para venda total de 54 mil toneladas. O preço mínimo é R$ 440,00 por tonelada.
Mafioletti comentou que a safra paranaense total foi de 30 milhões de toneladas, mas o Estado só tem capacidade para armazenar 18,5 milhões de toneladas. Cientes da dificuldade, as cooperativas do Paraná investiram, em 2003, R$ 200 milhões em novas estruturas para armazenagem. O investimento total dessas empresas, no ano, foi de R$ 450 milhões. Para o ano que vem, a estimativa é que os gastos em novos armazéns atinjam R$ 300 milhões, de um total de R$ 570 milhões.
De 40% a 45% da safra de trigo paranaense já foram comericalizados. O normal, nessa época, é atingir pelo menos 50%. De acordo com Mafioletti, os negócios voltaram a ser fechados após as primeiras exportações. ''Os moinhos perceberam que há alternativas para a safra'', opinou. O Brasil produziu, esse ano, metade do volume de trigo que vai consumir. Vai importar, portanto, mais de cinco milhões de toneladas, o que lhe concede o posto de maior importador mundial. No Paraná, a cotação do produto variava, ontem, de R$ 430,00 a R$ 460,00 por tonelada.

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