Rio O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) surpreendeu o mercado duas vezes, nos últimos quatro dias, com decisões opostas à atitude adotada pelo banco desde a posse da atual diretoria. Na sexta-feira, decidiu conceder empréstimo de US$ 1 bilhão à Embraer, depois de reiteradas vezes o presidente Carlos Lessa afirmar que a empresa precisaria buscar novas fontes de financiamento. Anteontem, anunciou acordo com a inadimplente AES, sem nenhum pagamento imediato, transformando parte da dívida em ações e com a possibilidade de perdão de parte do débito. Ou seja, tudo ao contrário do que os diretores do banco vinham pregando.
''A decisão surpreendeu pelo 'timing', pela postura mais técnica e pragmática e por ser uma medida técnica, sem componente político ou ideológico. Dentro das condições atuais do setor elétrico, esta era a decisão possível'', comentou Pedro Batista, do Banco Pactual, especialista no setor elétrico. ''Examinando as declarações dos diretores do banco até a semana passada, parece que o BNDES voltou atrás. Com certeza, no caso da AES, não foi um bom negócio. Mas, talvez tenha sido o negócio certo'', avalia Hélio França, mestre em Ciências Contábeis da Ibmec School.
As duas decisões ocorrem num momento delicado para o BNDES, em meio a uma série de rumores sobre uma eventual substituição da diretoria, dentro da esperada reforma ministerial. Fontes do banco afirmam que, pelo menos no caso da AES, o fechamento do acordo neste momento foi apenas uma coincidência, já que os termos do documento já estariam acertados há um mês, à espera do aval dos acionistas da empresa norte-americana.
Coincidência ou não, o fato é que a equipe que comanda o banco vinha sendo bombardeada por críticas devido à paralisação das operações. ''O caso da Embraer não parece uma mudança de postura, mas uma constatação de que a máquina estava realmente um pouco emperrada. A decisão de liberar o financiamento foi tomada para o dinheiro não ficar parado porque essa imagem é muito prejudicial ao banco'', diz França.
Uma fonte do banco confirma que a previsão de sobra de recursos até agora é muito alta. O orçamento do BNDES para este ano é de R$ 34,7 bilhões e boa parte deste dinheiro corre o risco de não sair do caixa do banco, o que não ocorre há, pelo menos, dez anos.
Os analistas Frank McGann e Felipe Leal, do banco de investimentos Merrill Lynch, em relatório distribuído pela instituição, mantiveram a recomendação de venda de Eletropaulo mesmo após o anúncio do acordo. Pela avaliação dos analistas, o entendimento deve solucionar a disputa sobre os montantes devidos e eliminar o risco de um leilão das ações preferenciais da Eletropaulo, mas não reduz a incerteza sobre a renegociação da dívida da distribuidora. Eles ressaltam que a Eletropaulo Metropolitana continua tendo um encargo da dívida extremamente pesado.

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