Bispos franceses abrem guerra contra VW
Os bispos franceses declaram guerra total à Volkswagen ou, pelo menos, à sucursal francesa dessa fábrica alemã de automóveis. O pecado? Uma publicidade para o novo modelo do Golf, quatro cartazes que fazem referência a uma das cenas mais sagradas dos Evangelhos: um quadro representando a Última Ceia, em que Jesus diz a seus apóstolos: Amigos, alegremo-nos, pois o novo Golf acaba de nascer.
Dá para entender a fúria dos bispos. A religião é um alvo cada vez mais apreciado pelos publicitários. Durante muito tempo, a Igreja fechou os olhos a esses exageros. Hoje mesmo, os bispos não se incomodam com o fato de que padres ou freiras façam a publicidade de queijos ou marcas de macarrão. Trata-se de desvios considerados inócuos pela Igreja e que, aliás, contam com uma longa tradição: na Idade Média, que era tão religiosa, ninguém se importava se as canções, ou as grandes obras literárias, zombassem dos padres e de seus grandes apetites estomacais ou sexuais. Rabelais, no Renascimento, é um exemplo disso.
Mas há algum tempo o uso que os publicitários vêm fazendo da religião mudou de nível. Já não se trata mais do folclore do padre ou da freirinha e, sim, das cenas mais importantes da simbologia cristã. Nestes últimos anos, vimos os muros das cidades desaparecerem sob desenhos duvidosos, que faziam a propaganda de filmes como Je Vous Salue, Marie, de Jean-Luc Godard, A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, ou Larry Flint, de Milos Forman, cujo cartaz mostrava o ator principal do filme - que fazia o papel do editor da revista masculina Hustler - crucificado e usando, como tanguinha, a bandeira americana. Houve um cartaz da Benetton que também chocou todo mundo: nele, um padre de batina preta beijava uma freirinha cujo hábito era imaculadamente branco.
Os advogados da Volkswagen alegam que a publicidade, hoje em dia, vai buscar a sua inspiração em todas as mitologias e também nas grandes religiões. É verdade. Mas quem é que ficaria ofendido com esse tipo de utilização de uma figura mitológica? Em ver, por exemplo, Hércules passeando numa estação de águas? Mas brincar com a religião pode, ao contrário, ferir a susceptibilidade de milhões de fiéis. E os bispos acrescentam que os publicitários franceses vão buscar a sua inspiração é na religião cristã, e não na budista ou muçulmana.
Os publicitários vêm seguindo com toda atenção o andamento desse processo, ao qual a Igreja da França atribuiu enorme importância simbólica. O que acontece é que os publicitários morrem de medo de ficar sem assunto. A sua produção é tão maciça que eles já exploraram todos os filões. Alguns deles, o dos animais ou o das crianças, por exemplo, já está quase esgotado. O mesmo acontece com a dona de casa que conversa com uma amiga (ou com a filha) sobre determinado cosmético ou sabão em pó. Ela já está quase fora de combate, coitada, de tanto nos infligir, há anos, a sua aterrorizante tolice.
Ainda bem que, para a indústria da publicidade, existe o sexo. Esse, sim, é um permanente best-seller. Mas os especialistas começam a se perguntar se até o sexo não vai acabar sofrendo com a overdose. Usar os seios de uma mulher para vender um automóvel, um barco a vela, um presunto, é uma idéia muito interessante mas, apesar de tudo, limitada. E até ela já começa a cansar. É por isso que temos de recorrer à religião, dizem os publicitários: porque os bichos, as crianças, as donas de casa de meia-idade e até mesmo o sexo já não estão rendendo mais nada. E, na religião, não há nada que funcione melhor do que Jesus Cristo. Deixa estar que essa defesa é ainda mais vulgar do que os próprios cartazes.





