Biotecnologia traz polêmica ao campo
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sábado, 01 de maio de 1999
Guto Rocha 
Plantar ou não plantar transgênicos? A dúvida divide agricutores das principais regiões produtoras do País. Alguns temem que a nova tecnologia irá provocar dependência dos produtos das multinacionais. Uma outra facção acredita que a tecnologia só não está sendo utilizada porque as sementes ainda não estão disponíveis no mercado. O único ponto consensual entre as partes é de que ainda falta muita informação sobre as verdadeiras vantagens e desvantagens do grão modificado geneticamente.
No Mato Grosso, terceiro produtor do País, com 2,45 milhões de hectares cultivados com soja, os agricultores resistem à entrada dos transgênicos. Para Itamar Locks, diretor de produção do Grupo Maggi, em Rondonópolis, maior produtor individual do grão no Brasil, as vantagens que estão sendo vinculadas à biotecnologia acabam sendo anuladas pelo alto custo do gene que foi agregado à semente.
Locks afirmou que o Grupo Maggi, em conjunto com a Embrapa Soja de Londrina, está testando em suas sementes a introdução do gene Roundup Ready (RR) desenvolvido pela Monsanto. Mas o diretor do Grupo Maggi afirma que o material não será liberado enquanto o negócio não for interessante.
Milton DóriaA favorBreno Hinnah, agrônomo da Sementes Petrovina: Se depender dos produtores, a adesão à soja RR vai ser grande e imediataO diretor do Grupo Maggi disse acreditar que o que vai realmente valorizar a soja será o desenvolvimento de variedades que garantam maior teor de proteína e de óleo. Com a soja RR o produtor tem uma lavoura livre de ervas daninhas, mas em termos de produtividade temos variedades desenvolvidas pela Fundação Mato Grosso com índices superiores aos obtidos com a soja transgênica, afirmou. Ele disse que a produtividade média nesta safra atingiu 3,3 mil kg/ha no Mato Grosso. O grupo Maggi produziu este ano 40 mil ha 132 mil toneladas de soja.
Locks acredita que neste momento é mais interessante se manter no cultivo da soja convencional e garantir a participação em mercados importadores que se recusam a consumir produtos transgênicos. Já tivemos contato com países escandinavos que querem soja não transgênica, com certificado, comentou.
Já o engenheiro agrônomo Breno Hinnah, da Sementes Petrovina, em Pedra Preta (MT), acredita que a tecnologia vai facilitar o trabalho dos agricultores. Se depender dos produtores, a adesão à soja RR será grande e imediata, como foi na Argentina, comentou. Hoje 70% das lavouras argentinas de soja são cultivadas com variedades que levam o gene RR. A Sementes Petrovina é a maior franqueada da Monsoy no Brasil, uma empresa da Monsanto.
Apesar de ser favorável ao plantio, o técnico afirma que a empresa de sementes está esbarrando em questões comerciais com a Monsanto. Querem nos transformar em criadores de frango que trabalham no sistema de integração, comparou. Ele disse que a multinacional repassa o material genético para ser reproduzido, mas além dos royalties de direito, quer utilizar a sua própria rede de distribuição.
O agrônomo afirma que ao entregar a distribuição para a multinacional, a empresa teria uma redução significativa em sua margem de lucro. Hoje temos uma margem que varia entre R$ 4,00 e R$ 5,00/saca. Eles nos oferecem uma margem de R$ 1,5/saca..
O diretor técnico da Fundação Mato Grosso, Dario Minoru Hiromoto afirmou que a instituição trabalha também com pesquisa em torno da soja transgência, mas reconhece que a pesquisa tem problemas prioritários para equacionar. Hoje o foco é o desenvolvimento de material que garanta sanidade e produtividade. O pesquisador da Fundação MT observou que a pesquisa e a produção não podem perder de vista o foco central da atividade: o consumidor final. Não podemos enfiar goela abaixo um produto que ele não conhece, disse
Paraná O Paraná terá espaço tanto para a soja transgênica como para a convencional. Quem vai definir o tamanho que cada uma irá ocupar será o mercado consumidor, comentou o assessor da presidência da Ocepar, Guntolf Van Kaick. A Ocepar representa 60% da produção agropecuária do Paraná. Van Kaick acredita que o assunto ainda é polêmico porque é novo no País.
O assessor da Ocepar não acredita que o produto da Monsanto irá provocar uma dependência dos agricultores pelos insumos da multinacional. Ele observa que outras empresas do setor já estão trabalhando para desenvolver produtos similares.
Já os representantes dos pequenos e médios produtores do Paraná estão preocupados com uma possível exclusão da categoria do processo produtivo com a adoção da tecnlogia. Segundo o engenheiro agrônomo e coordenador técnico e de economia da Fetaep, Sérgio Aguilar Gutierrez, o emprego dos transgênicos ampliará as diferenças entre os produtores que adota ou não a tecnologia. No Paraná são mais de 250 mil produtores que ficarão marginalizados do processo, afirmou.


