A possível falta de alimento no mundo amplamente divulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em decorrência da produção de biocombustível mostra opiniões contrárias de autoridades no assunto. Para o físico núclear, José Water Bautista Vidal, pai do carro a álcool, não há falta de comida no mundo, As pessoas de baixa renda é que não conseguem comprar. ''Existe 31% de alimentos em excessso no mundo'', afirma.

Para Vidal, o Brasil é uma grande potência do mundo num futuro bem próximo, devido a produção em alta escala de biocombustíveis. Para ele, o Estado do Paraná poderia ser estratégico neste sentido, porém o governador Roberto Requião é mais ''político'' e pouco ''operativo'' quando o assunto é produção agrícola voltada para a agricultura familiar.

Convidado recentemente pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), para uma reunião do Itamaraty, o cientista falou para 13 autoridades de países americanos, afirmando que a produção de biocombustíveis não tem nada a ver com a fome no mundo. Alguns países, durante a reunião no Itamaraty, chegaram a pedir para que se parasse a produção de biocombustíveis. ''Isso é próprio de países que estão a cabo dos interesses do petróleo'', dispara.



FOLHA: O problema no mundo é falta de alimento?

BAUTISTA VIDAL: O problema não é alimento, porque há 31% de alimentos em excesso no mundo. Acontece que os pobres e os que têm fome não têm dinheiro para comprar. O que é necessário é colocar esta massa de famélicos para produzir em pequenas propriedades e, dessa forma, eles se capitalizam e passam a comprar comida e a produzir alimentos muito mais barato.

Então por que os países desenvolvidos estão dizendo que os grãos para combustíveis vão aumentar a fome?

Esta é uma campanha mentirosa e falsa, desencadeada pelos países ricos. Os países que vivem dos 'petrodólares' estão pressionando para que os biocombustíveis não ganhem mais espaço comercial no mundo. Um barril de petróleo sai por US$ 113 e o barril de álcool US$ 20, então produzimos por menos de um quinto do preço. Acontece que o petróleo está acabando no mundo, ele é poluidor, é sujo, enquanto que as energias renováveis são permanentes e são limpas.

Na reunião do Itamaraty, esta campanha contra o biocombustível foi assunto?

Foi uma vergonha esta discussão no Itamaraty. A FAO é favorável a nossa proposta de produzir alimentos tanto para alimentação quanto para energia. Aqueles países que não sabem nada, ficaram defendendo a tese de proibir a venda de grãos para biocombustível. Já a exposição do Brasil, durante a reunião, foi muito boa, demonstramos que é possível produzir alimento, criar emprego no campo, acabar com a fome e produzir energia sem poluir o meio ambiente.

Quais os países que não defedem a produção de biocombustíveis na América Latina?

Praticamente todos os pequenos países latino-americanos. A Argentina, por exemplo, foi ponderada na defesa do biocombustível. Porém, eles têm uma pequena produção, não têm sol o ano todo, não possuem grandes extensões de terra, muito menos água em grande quantidade e não possuem trabalhadores o suficiente.

O senhor é o pai do carro à álcool, combustível produzido pelas grandes usinas. Agora o senhor diz que pretende estender a produção de biocombustível para o pequeno produtor, isto é possível?

Eu montei o Programa do Álcool, que foi baseado no grande produtor na época do presidente e general Ernesto Geisel. Havia, naquela época, uma capacidade ociosa que foi aproveitada. Isso acabou, isso saturou. É necessário, agora, aumentar a produção de energia renovável para suprir a carência que o petróleo produz no mundo. Isso pode ser feito com grande número de pequenos produtores.

O que ocorre no Brasil em relação a produção de energia limpa?

O que está acontecendo aqui é horrível, o capitalista internacional está comprando a nossa terra, está comprando as nossas usinas, internacionalizando a produção de energia. Os pequenos produtores não são capitalizados, não têm dinheiro, então vendem a terra na primeira proposta. Estão vendendo extensamente, o que é um crime contra a soberania nacional. São capitais americanos que estão comprando terras no Mato Grosso, Goiás e no Amazonas.

O que seria necessário fazer para enfrentar este problema das terras?

Nós estamos sem instrumentos de ação. Nós não temos uma Petrobras atuando na área dos renováveis. Se no petróleo foi preciso criar a Petrobras, por que é que no setor onde há grande vocação nacional não se monta uma estrutura para atender o produtor brasileiro. Enquanto isso, os americanos estão montando esta estrutura para dominar a energia do Brasil. É um negócio escandaloso que está acontecendo. E o Brasil não cria instrumentos para ajudar o pequeno produtor, para abrir o mercado, para montar logística de exportação.

A que o senhor credita isso? Ao desinteresse do governo Lula?

O governo Lula é totalmente inoperante. Não faz nada, não monta nada. Ao contrário do Geisel, que investiu na produção do álcool. O Brasil está perdendo o bonde da história, seu potencial é enorme. Há enormes áreas ociosas. Na Amazonas, por exemplo, existem 70 milhões de hectares que não se usa.

Há uma convergência de benefícios na produção de energia limpa com a criação de emprego, diminuição da fome no mundo e proteção do meio ambiente?

A energia tropical tem um aspecto econômico fantástico. Se criarmos um milhão de pólos, semelhante ao de Palmeira das Missões, com 67 mil pequenos produtores, vamos multiplicar 70 vezes a renda no campo. Eles se organizaram, criaram uma cooperativa e nós demos todo apoio tecnológico para o empreendimento.

O governo está apoiando?

Não, quem está apoiando é o Instituto do Sol, do qual faço parte. É uma ong sem fins lucrativos, que agregou todos aqueles que criaram o Programa do Álcool há 40 anos. Eu não tenho dinheiro para tocar este projeto, o que há é iniciativa, cooperação e o próprio produtor ao se capitalizar vai criando um ciclo de riqueza. Estamos também produzindo o dendê, por exemplo, que produz dez vezes mais óleo que a soja.

O Paraná é um estado agrícola, como o senhor vê a possibilidade de um projeto como este vir para cá?

Cheguei a falar com Requião (governador do Estado), fiquei até empolgado. Mas o Requião não tem sido operativo. Ele não tem criado condições para o pequeno produtor. Requião é muito político. Por exemplo, o Rio Grande do Sul é mais operativo, as comunidades de pequenos produtores estão respondendo muito bem. Independente disso, os pequenos precisam de apoio, de políticas públicas, de instrumentos de competição que nós não temos. O Brasil está dormindo no ponto. Hoje não é a luta de classes que movimenta o mundo, como disse Karl Marx, mas sim a energia.

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