Big Brother ajuda Receita a caçar sonegadores
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domingo, 30 de novembro de 2003
Lu Aiko Otta<br> Agência Estado 
Brasília - A Receita Federal está usando inteligência artificial para flagrar possíveis sonegadores. Informações tão diferentes como a declaração do Imposto de Renda, movimentações de imobiliárias, informações dos Detrans e compras com cartão de crédito são cruzadas entre si para verificar, basicamente, se a vida econômica de um contribuinte é compatível com a renda que ele declara.
Assim são escolhidas as pessoas e empresas visitados por fiscais da Receita. O trabalho é feito por um computador de grande porte, que correlaciona informações como se fosse um cérebro humano. Não por acaso, foi apelidado de Big Brother.
O Big Brother é o computador mais potente em operação no País, informou à reportagem o secretário-adjunto da Receita Federal Paulo Ricardo de Souza. O ''cérebro'' do computador está localizado em algum lugar de Brasília, que a Receita não revela, mas ele utiliza informações que estão armazenadas em várias capitais do País. ''Imagine a quantidade de informações que há em um banco como o Bradesco, por exemplo'', disse. ''Nós temos essas informações, mais as de todos os outros bancos, mais várias outras bases de dados.'' Daí surgiu o apelido Big Brother, numa referência ao romance ''1984'', de George Orwell.
Em 1948, o escritor tentou imaginar como seria a vida no futuro e criou um mundo onde o comportamento, pensamentos e até sentimentos das pessoas eram controlados por uma entidade, o Big Brother. A Receita não chega a esse nível, mas não poupa esforços em tornar cada vez mais difícil a tarefa de esconder rendimentos para não pagar impostos.
''Não precisa ficar com medo'', garante Souza. Ele explica que todas as informações processadas pela Receita obedecem às normas de sigilo bancário e fiscal e procuram preservar a privacidade do contribuinte. O que interessa ao Big Brother é se os impostos estão sendo pagos corretamente. ''Num caso extremo, um traficante de drogas que pague seus impostos direitinho não é pego pelo Big Brother.'' Nesse caso, explicou, a investigação cabe a outras instituições de Estado com quem a Receita colabora.
Indícios de crime encontrados pelos fiscais são sempre encaminhados ao Ministério Público, que as analisa e quando é o caso inicia uma investigação.
Neste ano, a Receita conseguiu autorização para alimentar o Big Brother com informações de pessoas que pagam mais do que R$ 5.000,00 mensais em cartão de crédito. ''Eu sei quanto a pessoa gastou, mas não como, porque isso não me interessa'', disse Souza. As informações sobre os cartões vêm de duas fontes: bancos e administradoras. Dos bancos, a Receita fica sabendo quanto os contribuintes gastaram. Das administradoras, quanto cada estabelecimento comercial recebeu em cartões.
Não há como juntar as duas informações. Mesmo assim, essas informações são muito úteis para a Receita. Uma pessoa que normalmente gaste mais do que R$ 5.000,00 por mês no cartão precisa ter renda para isso, e é isso o que o Big Brother vai verificar. A outra ponta, a dos estabelecimentos, serve para checar se o recolhimento dos tributos sobre o faturamento e o lucro condiz com o movimento. Um alvo das fiscalizações de 2004 serão os hotéis, agências de turismo e restaurantes, pois há suspeitas que parte deles não declaram tudo o que efetivamente faturam. Com as informações dos cartões de crédito, ficará mais fácil checar esses dados.


