Bets saem do ambiente virtual e ganham lojas físicas no Paraná
Em pouco mais de um ano, concessionária contratada pela Lottopar abriu mais de 30 unidades no Estado e meta é chegar a 80 até o final de 2026
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sábado, 20 de dezembro de 2025
Em pouco mais de um ano, concessionária contratada pela Lottopar abriu mais de 30 unidades no Estado e meta é chegar a 80 até o final de 2026

No cruzamento da avenida Higienópolis com a rua Montevidéu, um estabelecimento comercial recém-inaugurado chama a atenção. A loja com fachada nas cores preta e laranja é uma das unidades da Apostou.com no Paraná. As bets, que nos últimos anos se disseminaram no ambiente virtual, agora começam a se espalhar rapidamente em endereços físicos pelo Estado. Apresentado como “bet shop com vídeo loteria”, o negócio é regulamentado pela Lottopar, a autarquia estadual responsável pela exploração, administração e fiscalização do serviço público de loterias no território paranaense.
A empresa exploradora da atividade, com sede instalada em Curitiba, venceu um edital de concessão lançado pelo governo do Paraná. O contrato nº 017/2023, assinado em setembro de 2023, tem prazo de vigência de cinco anos, podendo ser prorrogado por igual período, ou seja, o acordo entre as partes poderá se estender até 2033. A primeira loja começou a operar em 31 de outubro de 2024, na capital, e em pouco mais de um ano, já são mais de 30 endereços, em todas as regiões do Estado. As mais recentes são a unidade de Londrina, inaugurada em 10 de dezembro, data do aniversário da cidade, e a de Astorga, que funciona desde o último dia 12. A Apostou estabeleceu a meta ambiciosa de mais do que dobrar o número de lojas físicas até o final de 2026, chegando a 80 unidades.
A Lottopar classifica a atividade como loteria instantânea em meio digital, também chamada de “raspinha eletrônica”, uma extensão do formato físico de aposta, comercializado em mais de dois mil pontos de venda no Estado. No interior dessas lojas, no entanto, fica evidente a enorme diferença entre raspar um bilhete de papel e apostar em uma máquina de vídeo loteria. O espaço escuro em razão da baixa iluminação artificial e da ausência de pontos de entrada de luz natural, e a inexistência de relógios fazem com que os jogadores percam a noção do tempo. O som predominante é o emitido pelas máquinas, uma mistura de batidas digitais que criam expectativa a cada rodada com músicas que lembram desenhos animados infantis, em jogos que têm simpáticas vaquinhas e animais da fauna tropical como personagens centrais. A climatização, as cadeiras confortáveis e a oferta de bebidas alcoólicas e petiscos como cortesia criam um ambiente convidativo aos visitantes.
O método de pagamento e recebimento das apostas é facilitado, mas dinheiro em espécie e cartões não são aceitos para proteger os apostadores do endividamento e coibir a lavagem de dinheiro e a ocultação de valores. Depois de escolher a máquina, o jogador define o valor que quer apostar, a partir de R$ 5, faz o pix por meio de um QR Code e recebe o equivalente em créditos. Se quiser resgatar o valor ganho ou recuperar o saldo restante para mudar de máquina, basta clicar em “sacar” que o dinheiro volta automaticamente para a mesma chave pix utilizada na compra dos créditos. O valor dos prêmios anunciados pode chegar aos milhares de reais. A operação das máquinas é feita de modo bastante intuitivo, mas falta clareza sobre o quanto se ganhou ou perdeu.
Embora o ambiente lembre um cassino, a Lottopar esclareceu, via assessoria de imprensa, que as máquinas de vídeo loteria têm plano de jogo aprovado previamente pela autarquia, funcionando com prêmios “predefinidos e transparentes em um banco de dados eletrônico”. A auditoria, informou a autarquia estadual, fica a cargo de laboratórios internacionais, “garantindo segurança e probabilidade verificáveis”. A modalidade está prevista na lei federal nº 13.756/2018, que legalizou as AQF (Apostas de Quota Fixa) no país.
O acesso às lojas da Apostou no Estado é restrito a maiores de 18 anos. A entrada de menores de idade é vetada até mesmo na companhia dos responsáveis. No dia em que a reportagem da FOLHA visitou a unidade de Londrina, mais de 90% do público presente eram idosos.
Segundo a Lottopar, a Apostou possui atualmente três contratos de concessão vigentes com o governo do Paraná, abrangendo diferentes modalidades lotéricas. Todos eles são firmados sobre a receita, ou seja, não possuem um valor fixo e a remuneração do Estado é calculada com base no desempenho da operação. A base de cálculos utilizada é o GGR (Gross Gaming Revenue), definido como o valor total das apostas realizadas, descontado o valor total dos prêmios pagos aos apostadores, conforme estabelecido na legislação em vigor.
O contrato firmado entre a empresa de vídeo loteria e a Lottopar que permitiu a instalação das lojas físicas no Estado estabelece o recolhimento de 6% da receita bruta do concessionário, sendo 1% destinado ao pagamento de outorga variável e 5% destinados ao pagamento de royalties, conforme o Decreto Estadual nº 10.843/2022, que regulamentou a Lotepar (Loteria do Estado do Paraná).
A reportagem não conseguiu contato com a Apostou. Todas as informações referentes à empresa foram retiradas do site ou das redes sociais da empresa e os dados do contrato foram repassados pela assessoria de imprensa da Lottopar. Até o momento, disse a autarquia, a empresa de apostas repassou R$ 34 milhões ao Estado, considerando outorgas fixas e variáveis. Pela modalidade de AQF, 1,5% são destinados ao pagamento de ações e serviços relacionados à segurança pública, 1,5% devem ser destinados ao financiamento de ações e serviços públicos voltados à habitação popular e 2% são direcionados às ações e programas do governo estadual voltadas à concretização dos demais direitos sociais previstos no Título VI da Constituição do Estado do Paraná, que abrange a seguridade social, saúde, assistência social, educação, cultura e desporto, ciência e tecnologia, comunicação social, meio ambiente, saneamento, atendimento à criança, ao adolescente, ao jovem, à mulher, ao idoso e aos indígenas.
Novo contrato
A Lottopar está com um novo edital aberto para credenciamento da concessionária que irá explorar a modalidade lotérica de AQF. Esse novo contrato prevê a operação de um sistema de apostas relativas a “eventos reais de temática esportiva e/ou virtuais de jogos on-line”. Segundo a autarquia, os produtos poderão ser explorados por meio digital, mediante o acesso a canais eletrônicos, e também por meios físicos, exceto jogos on-line. O novo contrato segue o modelo de contrato de receita, sem valor fixo, e a remuneração do Estado é feita com base no desempenho das operações. A expectativa é que a nova concessionária inicie as operações no próximo mês de abril, o que inclui a abertura de cinco unidades físicas.
Campanhas de conscientização não funcionam para todo mundo
No site da Lottopar e no site da Apostou há várias informações sobre medidas para um jogo responsável de forma a alertar e evitar a prática compulsiva. Mas vista como uma extensão das bets virtuais, a proliferação das lojas físicas de vídeo loteria acende um sinal vermelho porque pode contribuir para agravar um problema enfrentado por inúmeras famílias brasileiras nos últimos anos, desde a popularização das apostas on-line: o vício em jogos.
As apostas on-line cresceram 734% nos últimos três anos. Um levantamento divulgado pelo Banco Central em setembro do ano passado apontou que nos primeiros oito meses de 2024, os brasileiros gastaram cerca de R$ 20 bilhões por mês em apostas on-line e o número de apostadores somou 24 milhões de pessoas físicas. Uma matéria publicada em junho deste ano pelo site de notícias Intercept Brasil divulgou que entre junho de 2023 e abril de 2025, período em que as bets tornaram-se mais populares no país, o número de auxílios-doença concedidos mensalmente por ludopatia, o vício em jogos, aumentou mais de 2.300% no Brasil. Em menos de dois anos, foram concedidos 276 benefícios. “Esse é um problema sério e que vai se agravar cada vez mais”, avaliou a psicóloga e consultora de negócios Sarah Gerusah Leoce Figueiredo. “É uma renda que está saindo da economia e indo para os jogos.”
Figueiredo citou estudos que já apontam que pessoas estão deixando de consumir itens de vestuário, alimentos considerados supérfluos, como biscoitos e bebidas, e reduziram as atividades de lazer como forma de economizar para gastar em jogos on-line. “Tornou-se um problema de saúde pública”, atestou.
Segundo a psicóloga, fatores biológicos e sociais propiciam esse comportamento, mas o contexto em que o indivíduo está inserido tem um grande impacto em como o hábito de investir em apostas virtuais irá evoluir. “O contexto é mais forte do que a genética.”
Conhecida como “Lei das Bets”, a lei federal 14.790/2023 regulamentou os jogos on-line e as apostas esportivas no Brasil, estabelecendo o marco regulatório para a exploração das AQFs (Apostas de Quota Fixa) tanto em eventos esportivos reais quanto em eventos virtuais de jogos on-line.
Além da idade mínima de 18 anos, a regulamentação impõe uma série de outras regras para que essas empresas possam operar no país. No site da Lottopar e da Apostou há informações sobre jogo responsável e sobre um recurso disponível, que é a autoexclusão. Quando um jogador identifica que a prática deixou de ser um divertimento e se tornou uma compulsão que poderá levá-lo à ruína financeira, ele pode recorrer à autoexclusão e ficar impedido de fazer novas apostas por, no mínimo, 30 dias.
A autarquia estadual também ressalta que o jogo deve ser um meio de entretenimento e lazer e não pode ser visto como fonte de renda extra nem de recuperação financeira. No site da Lottopar e da Apostou também há formas de detectar se as apostas estão saindo do controle e onde conseguir ajuda para controlar o vício. A Lottopar afirma que além das fiscalizações e do recurso de autoexclusão, ferramentas de Inteligência Artificial são utilizadas no monitoramento do comportamento dos jogadores, podendo emitir alertas informativos para quem estiver jogando por um tempo prolongado, dentre outras medidas.
Esse movimento de conscientização, no entanto, não funciona para todas as pessoas, ressaltou Figueiredo. “As campanhas de conscientização funcionam para uma pessoa emocionalmente saudável. Quando a pessoa tem um bom nível de maturidade emocional, ela percebe que se tornou outra pessoa e vai buscar ajuda, como um apoio psicológico ou psiquiátrico.”
Mas este não é o principal perfil dos apostadores brasileiros que desenvolvem um comportamento compulsivo. “Quando nos voltamos às questões sociais, as classes sociais que mais jogam e mais gastam são as mais baixas por não ter acesso aos meios de amadurecimento, conscientização, desenvolvimento pessoal e profissional. Elas vivem em um contexto privado de informações de qualidade e de ferramentas de desenvolvimento, por isso, são mais vulneráveis e mais suscetíveis. Elas não têm discernimento para identificarem o risco”, pontuou a psicóloga.
Figueiredo equipara o vício em jogos ao consumo abusivo de álcool e outras drogas. “Não tem uma substância tóxica envolvida, mas pode gerar os mesmos danos, inclusive chegando ao nível de suicídio. É uma questão de saúde mental, uma situação de calamidade pública. A saída é procurar ajuda e ela deve começar pelo primeiro lugar que conseguir pedir ajuda.”


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


