Agência Estado
De Brasília
O Banco Central (BC) deixou claro ontem que os juros serão elevados caso se repita em 2000 uma alta das tarifas públicas em um patamar idêntico ao verificado neste ano. O recado foi dado com a divulgação feita ontem de um documento com um extrato das discussões ocorridas na reunião do Comitê de Política Monetário (Copom) realizada no último dia 10. Nesta reunião, o BC surpreendeu parte do mercado ao deixar os juros básicos da economia congelados em 19% ao ano e ainda retirar o viés de baixa da meta para a taxa Selic. A expectativa de parte do mercado era de que os juros caíssem para algo entre 18,5% e 18,75% ao ano.
O documento divulgado pelo BC mostra que, neste ano, as tarifas públicas já subiram 16,79%, enquanto a variação do Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi de apenas 6,01%. ‘‘Os derivados de petróleo (gasolina, óleo diesel, gás encanado e de botijão) apresentaram alta de 43,22% e os não derivados chegaram a 11,36%, sendo 9,22% em telecomunicações, 17,24% em energia elétrica e 11,53% em transportes públicos’’, diz o documento distribuído pela assessoria de imprensa do BC no final da manhã de ontem. De acordo com o texto do documento, os índices deixam claro a pressão exercida pelas tarifas administradas sobre a inflação medida pelo IPCA, que também é usado na fixação das metas inflacionárias do BC.
A constatação de que a alta das tarifas poderá afetar a trajetória dos juros partiu da elaboração de três cenários diferenciados usados como base para se projetar o comportamento da inflação nos anos 2000 e 2001. O terceiro cenário foi feito levando em conta a possibilidade de repetição dos reajustes das tarifas públicas em um patamar semelhante ao verificado neste ano. ‘‘As simulações para o terceiro cenário indicam que, com a pressão gerada pelos preços admnistrados e sem alteração na taxa de juros básicas, as expectativas de inflação deterioram-se e comprometem o cumprimento das metas para os dois próximos anos, em todos os modelos utilizados’’, diz o texto divulgado pelo BC.
Em segundo cenário, o Copom analisou o que poderia ocorrer caso as tarifas subissem numa velocidade um pouco acima da inflação medida pelo IPCA. Neste caso, o BC diz que as metas inflacionárias seriam alcançadas com folga se ocorrer uma melhoria da situação fiscal do setor público e o prêmio de risco embutido na taxa de juros, em consequência, fosse reduzido. ‘‘Nos modelos em que o prêmio de risco permanece estável, as simulações apontam para o cumprimento da meta em 2000 sem folga; em 2001, a projeção central situa-se acima de meta, mais ainda no intervalo de tolerância (2% para cima e 2% para baixo)’’, diz o documento do BC.
O Copom ainda concluiu que, sem levar em conta o que ocorrerá com as tarifas públicas, que a manutenção dos juros no patamar atual permitiria alcançar com folga as metas de inflação tanto para o ano que vem como para 2001.
O documento também evidencia a preocupação do BC com as tarifas públicas ao dizer que ‘‘o processo de reajuste de preços administrados pode apresentar persistência e propagar-se pela economia, gerando pressão inflacionária’’. ‘‘A missão do BC é evitar que isso ocorra’’, afirma o documento.
Apesar da preocupação com as tarifas públicas, o texto do BC afirma que uma pesquisa interna da instituição aponta para a possibilidade de a inflação medida pelo IPCA chegar a 6,49% no ano que vem. O número está um pouco acima da meta inflacionária de 6% para o ano 2000, mas dentro do intervalo de confiança de 2% para cima e para baixo admitido no sistema de metas inflacionárias. O texto do BC finaliza apontando os motivos que levaram o BC a optar pela cautela e deixar os juros congelados em 19% e sem viés. O primeiro é ‘‘o diagnóstico de que a elevação recente da inflação ao consumidor deve-se a fatores específicos e transitórios (como carne, álcool, automóveis e câmbio), sem configurar o início de um processo generalizado de ajustes de preços’’. O segundo e último motivo apontado pelo documento do BC foi o de ‘‘balizar a formação de expectativas de inflação da sociedade em resposta a essas novas informações deixando claro que o BC não permitirá que choques de oferta persistentes levem a um aumento na taxa de inflação’’.

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