BC reduz a Selic. E daí?
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sábado, 23 de agosto de 2003
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
Política econômica tem sido o assunto preferido de 10 entre 10 brasileiros desde que o presidente Luis Inácio Lula da Silva assumiu, no dia 1º de janeiro deste ano. Selic, compulsórios, Comitê de Política Monetária (Copom) e Banco Central (BC) são termos com os quais o brasileiro teve que se entender nos últimos oito meses, se quisesse saber qual o destino do seu dinheiro, corroído mensalmente pelos juros do cheque especial ou do cartão de crédito.
Hoje, a moda é comemorar, de forma mais contida ou euforicamente, de acordo com nossas lideranças, as reduções gradativas da Selic, os juros básicos da economia do País. Mas é certo que, dos que comemoram, poucos sabem, de fato, o que a queda da tal Selic pode representar para o bolso de cada um. ''A Selic determina o preço mínimo para o dinheiro do País e só está vinculada diretamente aos juros que serão cobrados entre transações de grandes tomadores financeiros com o governo'', explica o mestre em economia política Laércio Rodrigues de Oliveira. ''E, principalmente devido à diferença de volume de crédito, há um hiato muito grande entre a Selic e os juros cobrados do consumidor comum''.
Segundo Rodrigues, a Selic funciona como uma arma para o governo federal, regulando a capacidade que a União tem para captar dinheiro com investidores privados, como os bancos. ''Quando o BC mantém a Selic em um patamar elevado, ele garante um bom retorno aos bancos que lhe emprestaram dinheiro, o que assegura boas possibilidades de conseguir outros empréstimos. Por outro lado, com os juros altos, o governo aumenta sua própria dívida''.
Mas a redução da Selic implica, pelo menos indiretamente, na queda dos juros cobrados ao consumidor. ''Quando o governo reduz os juros básicos, está reduzindo o pagamento de seus títulos de dívida pública, cuja compra é a primeira opção dos bancos para a geração de rentabilidade. Se essa rentabilidade diminui, os bancos deixam de comprar títulos e buscam lucros através da oferta de crédito. E, numa equação simples de mercado, se há muita oferta, os preços caem. No caso do crédito, o que se reduz são os juros''. explica o mestre em teoria econômica Sidnei Pereira do Nascimento.
E de acordo com os dois economistas, a redução gradativa da Selic é a medida mais correta para buscar o reaquecimento da economia sem gerar inflação. ''Se os juros fossem reduzidos em 10 pontos percentuais, por exemplo, o dinheiro disponível no País seria destinado ao consumo. E se esse consumo for mais elevado do que a capacidade da indústria de atender à demanda, a inflação volta a nos assombrar'', explica Rodrigues. ''Por isso, a redução só pode ser gradativa. E mesmo supondo que uma indústria tenha tecnologia ociosa e estoques lotados, a mão-de-obra necessária para recolocar toda essa logística em ordem seria empregada em no mínimo 90 dias, tempo suficiente para a retomada do processo inflacionário'', conclui Nascimento.


