Imagem ilustrativa da imagem BC mantém juros por incertezas sobre ajustes
| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Reunião do Copom foi a primeira de Ilan Goldfajn na presidência do BC; este é o período mais longo de taxa imóvel no País no regime de metas de inflação



Pelo 12º mês consecutivo, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu ontem manter a taxa básica de juros, a Selic, em 14,25%, em decisão unânime. No comunicado divulgado após a decisão, a primeira com Ilan Goldfajn na presidência do BC, o colegiado entendeu que ainda há riscos de inflação, mesmo com o movimento de desaceleração, e incertezas em relação à aprovação de ajustes necessários à economia nacional. Apesar de esperada pelo mercado, a manutenção do índice foi criticada por entidades do setor produtivo e de trabalhadores, por atrasar ainda mais a retomada dos investimentos e da geração de empregos.
É o período mais longo de taxa imóvel no regime de metas de inflação, implantado no Brasil em 1999. A ata do encontro que detalha a decisão do Copom será publicada na próxima terça-feira e é aguardada por indicar se existe viés de repetir ou de reduzir a Selic no próximo mês. A taxa básica é usada como referência para busca de créditos em bancos ou para pagamento na venda de títulos da dívida pelo governo, mas, para o consumidor, costuma ser bem maior. A pior das taxas, a cobrança sobre os juros rotativos do cartão de crédito, chegou em junho a 447,44%, segundo a última pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).
Conforme o relatório do BC, porém, "o ambiente encontra-se relativamente benigno para as economias emergentes. No entanto, a dinâmica da recuperação da economia global permanece frágil, com incertezas quanto ao seu crescimento". Ainda, apontou que a inflação segue acima do esperado no curto prazo, "em boa medida decorrente de preços de alimentos".
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) divulgou nota, na qual citou "exagero no conservadorismo" por parte do BC. Na entidade, a crença é de que já há espaço para reduzir a Selic.

Inflação
O consultor econômico da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Marcos Rambalducci, afirmou que o setor produtivo gostaria que a taxa caísse, mas que qualquer análise estritamente técnica deveria indicar a manutenção. "Se a Selic fosse reduzida, ficaria a sinalização ao mercado de que não se dá a devida importância à inflação, que ainda resiste", diz. Para ele, não existe combate à alta dos preços sem recessão. "Ainda teremos momentos difíceis pela frente."
O presidente do Sindicato de Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, vai na mesma linha e afirma que a decisão do BC visa recuperar a credibilidade da política monetária do País, "de forma mais técnica". "Ainda não se reduziram as despesas do governo como se deveria e não vejo espaço para diminuir a Selic. É preciso construir as bases, ajeitar a casa", diz. Ele completa que medidas mais duras devem ser tomadas apenas após a decisão sobre a permanência de Temer no lugar da presidente afastada, Dilma Rousseff.

Desestímulo
No entanto, o supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) do Paraná, Sandro Silva, afirma que é preciso criticar a tática adotada ainda em 2014 de elevar juros diante do desaquecimento econômico, o que diminuiu a arrecadação e elevou crise já avizinhada pelas dificuldades no cenário internacional. "Foi reflexo de nossa Selic ser muito elevada em relação à de outros países, o que desestimula os investimentos, enquanto estávamos com um real valorizado, o que prejudicou o setor produtivo nacional e facilitou as importações."
Silva considera que, aliado à crise política e aos desdobramentos da Operação Lava Jato, o problema agravou a crise. "O governo atual tem pressão forte para manter uma política conservadora e mudar a ótica do anterior, mas toma medidas que prejudicam a maior parte da população", diz. "Poderia mudar a lógica do sistema tributário, por exemplo, que é regressivo, mas tem tomado decisões que aumentam a regressividade, como diminuir a alíquota sobre remessa de dinheiro ao exterior", sugere.

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