Numa atitude surpreendente, o governo liberou ontem os preços das operações de câmbio e permitiu que o real sofresse mais uma nova forte desvalorização frente ao dólar. Nos últimos negócios realizados no mercado de câmbio, os investidores pagavam R$ 1,42 para comprar um dólar, o que representa uma desvalorização do real de 7,6% em relação ao preço da véspera e de 17,35% na semana.
Acuado pela fuga de recursos rumo ao exterior, o governo cedeu e realizou o que parecia impossível: deixou o câmbio livre. Na abertura do mercado, os operadores já estavam desesperados com o resultado de uma perda de US$ 1,7 bilhão no volume das reservas brasileiras, na quinta. A pressão por compra de dólares era forte e as primeiras operações foram feitas pelo teto de R$ 1,32 da banda cambial. O mercado esperava, ansioso, a primeira atuação do Banco Central (BC). Mas ele ficou quieto. Timidamente, o dólar começou a ser negociado acima do limite máximo, até R$ 1,35. E o mercado: ‘‘cadê o BC, para segurar a cotação?’’. Nada. Meia hora depois, o BC anunciou que o sistema de bandas estava revogado. As cotações pularam para R$ 1,45 para venda, as 10h30. Ao meio-dia, elas estavam em R$ 1,513, a máxima do dia. A essa altura, porém, o cidadão comum não encontrava mais moeda para comprar. À tarde, o dólar recuou.
O impacto do câmbio livre nos mercados foi avassalador. A bolsa fechou em alta de 33,4%, a segunda maior alta da história do IBovespa, em termos nominais. E os juros futuros despencaram de 46% ao ano para 33% ao ano nas operações de seis meses. O fluxo cambial registrava às 18 horas saldo negativo de US$ 140 milhões no mercado comercial e de apenas US$ 10 milhões no flutuante. Num claro sinal de que os últimos dias de saídas astronômicas de recursos não se repetiram.
‘‘O câmbio livre embute um elemento de risco na operação, que se constitui num inibidor natural da saída de capital’’, afirmou Gilberto Faiwichow, sócio-diretor do Banco Rendimento. Isso porque, quando o investidor quiser entrar, poderá pagar bem mais caro, ou seja, aumentou o risco de se especular contra o real. Como o capital externo era atraído para o Brasil em decorrência das altas taxas de juros, a flutuação do dólar abre espaço para baixá-las. A queda das taxas vai permitir o crescimento da economia no médio prazo, daí a reação positiva do mercado.
O lado negativo da medida: de cara, 1999 deve fechar com uma inflação acumulada de 7% ou até 9%, segundo estimativas da Fipe. Isso, se as cotações permanecerem no preço de ontem. A volatilidade do câmbio deve afetar os preços dos bens e serviços e corre-se o risco de um descontrole da desvalorização e da inflação. A estabilidade nos preços, vale lembrar, é o maior trunfo do real.
As empresas que têm dívidas em dólar e destinam seus produtos ao mercado interno não terão como compensar a perda com a desvalorização. Além disso, as companhias endividadas no exterior não terão condições de rolar seus vencimentos, pelo menos a curto prazo. O prêmio de risco deve aumentar em decorrência da desvalorização e os agentes internacionais devem esperar sinais mais concretos de cumprimento das metas fiscais para rever suas estratégias em relação ao Brasil.

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