BC libera câmbio, real cai e bolsa dispara
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sábado, 16 de janeiro de 1999
Agência Estado 
Numa atitude surpreendente, o governo liberou ontem os preços das operações de câmbio e permitiu que o real sofresse mais uma nova forte desvalorização frente ao dólar. Nos últimos negócios realizados no mercado de câmbio, os investidores pagavam R$ 1,42 para comprar um dólar, o que representa uma desvalorização do real de 7,6% em relação ao preço da véspera e de 17,35% na semana.
Acuado pela fuga de recursos rumo ao exterior, o governo cedeu e realizou o que parecia impossível: deixou o câmbio livre. Na abertura do mercado, os operadores já estavam desesperados com o resultado de uma perda de US$ 1,7 bilhão no volume das reservas brasileiras, na quinta. A pressão por compra de dólares era forte e as primeiras operações foram feitas pelo teto de R$ 1,32 da banda cambial. O mercado esperava, ansioso, a primeira atuação do Banco Central (BC). Mas ele ficou quieto. Timidamente, o dólar começou a ser negociado acima do limite máximo, até R$ 1,35. E o mercado: cadê o BC, para segurar a cotação?. Nada. Meia hora depois, o BC anunciou que o sistema de bandas estava revogado. As cotações pularam para R$ 1,45 para venda, as 10h30. Ao meio-dia, elas estavam em R$ 1,513, a máxima do dia. A essa altura, porém, o cidadão comum não encontrava mais moeda para comprar. À tarde, o dólar recuou.
O impacto do câmbio livre nos mercados foi avassalador. A bolsa fechou em alta de 33,4%, a segunda maior alta da história do IBovespa, em termos nominais. E os juros futuros despencaram de 46% ao ano para 33% ao ano nas operações de seis meses. O fluxo cambial registrava às 18 horas saldo negativo de US$ 140 milhões no mercado comercial e de apenas US$ 10 milhões no flutuante. Num claro sinal de que os últimos dias de saídas astronômicas de recursos não se repetiram.
O câmbio livre embute um elemento de risco na operação, que se constitui num inibidor natural da saída de capital, afirmou Gilberto Faiwichow, sócio-diretor do Banco Rendimento. Isso porque, quando o investidor quiser entrar, poderá pagar bem mais caro, ou seja, aumentou o risco de se especular contra o real. Como o capital externo era atraído para o Brasil em decorrência das altas taxas de juros, a flutuação do dólar abre espaço para baixá-las. A queda das taxas vai permitir o crescimento da economia no médio prazo, daí a reação positiva do mercado.
O lado negativo da medida: de cara, 1999 deve fechar com uma inflação acumulada de 7% ou até 9%, segundo estimativas da Fipe. Isso, se as cotações permanecerem no preço de ontem. A volatilidade do câmbio deve afetar os preços dos bens e serviços e corre-se o risco de um descontrole da desvalorização e da inflação. A estabilidade nos preços, vale lembrar, é o maior trunfo do real.
As empresas que têm dívidas em dólar e destinam seus produtos ao mercado interno não terão como compensar a perda com a desvalorização. Além disso, as companhias endividadas no exterior não terão condições de rolar seus vencimentos, pelo menos a curto prazo. O prêmio de risco deve aumentar em decorrência da desvalorização e os agentes internacionais devem esperar sinais mais concretos de cumprimento das metas fiscais para rever suas estratégias em relação ao Brasil.


